Maduros e empoderados, chilenos exigem melhorias sociais com urgência

Gerard Soler.

Santiago, 17 nov (EFE).- O próximo presidente do Chile encontrará uma população empoderada e ativa que exige medidas sociais inadiáveis, como a reforma do sistema privado de previdência e a proteção efetiva de crianças em situação de vulnerabilidade.

Os programas eleitorais dos oito candidatos que disputarão as eleições no próximo domingo falam de luta contra a corrupção, preservação do meio ambiente e respeito aos povos originais. Isto se deve, em parte, à cobrança feita por uma população com mais compromisso social e menos tolerância à desigualdade, capaz de expressar o mal-estar provocado nas redes sociais e nas ruas com mobilizações populares.

"Aconteceu uma união social que foi capaz de levantar certos temas e promovê-los", afirmou à Agência Efe o coordenador legislativo da Fundação Cidadão Inteligente, Octavio del Favero.

Apesar da baixa popularidade nas pesquisas de opinião, a presidente Michelle Bachelet promoveu reformas sociais de grande envergadura com um apoio popular. A descriminalização do aborto em três casos, a universidade gratuita para os estudantes de baixa renda e a reforma trabalhista, que dá mais poder aos sindicatos, são alguns dos pontos do segundo mandato da líder socialista e deram um ar novo ao Chile.

Para o sociólogo e consultor político Eugenio Tironi, estas reformas produziram mudanças significativas na sociedade e "redesenharam o mapa de poder" em um país tradicionalista e conservador.

"Estas questões, que para alguns são avanços e para outros serão retrocessos, já são bastante irreversíveis e produziram uma mudança profunda na sociedade chilena", disse.

Por isso, uma das tarefas do futuro governo será iniciar as reformas de Bachelet, apesar de alguns candidatos anunciarem que vão modificar ou até derrubar várias iniciativas. O ex-presidente e candidato conservador Sebastián Piñera, que lidera as pesquisas, antecipou que fará mudanças profundas nas reformas educacionais, trabalhistas e tributárias.

Analistas políticos acreditam, no entanto, que o ganhador do pleito terá pouca margem de manobra para retocar as reformas, que são leis promulgadas. Além disso, é improvável que algum grupo político obtenha ampla maioria no Parlamento.

"Poderão ser feitas correções, mas a possibilidade de revertê-las a zero é muito pequena. É preciso amplo apoio no Parlamento e poderia provocar um conflito social muito grande", afirmou Tironi.

Um dos principais desafios do próximo governo será se encarregar de aspirações sociais cujo fracasso provoca indignação e frustração na população e que a presidente Michelle Bachelet não conseguiu responder de forma satisfatória. Para muitos, por exemplo, é indispensável reformar o sistema privado de previdência, uma herança do modelo neoliberal imposto nos anos 80 pela ditadura de Augusto Pinochet. O sistema, baseado na capitalização individual dos cotizantes, é questionado por grande parte dos chilenos e deixou em evidência que não é capaz de pagar previdências dignas aos aposentados.

Também é urgente abordar os problemas no Serviço Nacional de Menores (Sename), a instituição que trata dos temas que envolvem menores de idade em risco social. A crise explodiu em 2016, com a morte de uma menina de 11 anos em um dos centros desse organismo, aparentemente asfixiada por funcionárias da instituição. O fato comoveu à sociedade chilena, que meses depois soube que 865 menores de idade que dependiam ou tinham alguma relação com o Sename tinham morrido entre 2005 e o ano passado.

O presidente que assumir em março de 2018 deverá lidar com esses e outros assuntos sob investigação e a fiscalização de uma sociedade civil que deixou para trás o papel de mera espectadora do exercício do poder.

"Acho que o protesto e o mecanismo social serão questões que o novo governo precisará enfrentar", afirmou Octavio del Favero.

Para ele, isso acontece porque a sociedade civil tem o desafio de se transformar em ator que supervisiona a política de forma mais efetiva e propositiva, e não apenas que critica o que ocorre.

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