Emmerson Mnangagwa, o "Crocodilo" que retornou para se vingar dos Mugabe

Oliver Matthews.

Harare, 19 nov (EFE).- Quando o presidente do Zimbábue, Robert Mugabe, destituiu seu vice-presidente, Emmerson Mnangagwa, para favorecer as ambições de poder da primeira-dama, Grace Mugabe, esqueceu que a discrição e os ataques surpresa contra adversários políticos valeram ao seu antigo aliado o apelido de "Crocodilo".

Em seu único comunicado desde que foi destituído, Mnangagwa prometeu que retornaria do seu exílio na África do Sul para "voltar a controlar as engrenagens de nossos belos partido e país", e os militares fizeram o trabalho sujo: se desfazer dos Mugabe para que seu partido, a União Nacional Africana do Zimbábue-Frente Patriótica (ZANU-PF, na sigla em inglês) o nomeie como novo líder.

Desde aquele comunicado, não se soube mais nada do político, de 75 anos, um veterano de guerra que desenvolveu fortes laços com o exército durante o seu período à frente do Ministério da Defesa.

Nem sequer depois de ser designado como número um da ZANU-PF de forma provisória e candidato para as eleições presidenciais de 2018, o também ex-ministro de Justiça e porta-voz do Parlamento rompeu seu silêncio.

Embora agora seja visto como o salvador da democracia zimbabuana e vangloriado pelos mesmos que se manifestam contra Mugabe, Mnangagwa tem um passado obscuro: como ministro de Segurança após a independência, em 1980, teve um papel fundamental no massacre de mais de 20 mil membros da etnia Ndebele.

A chamada operação Gukurahundi, que muitos qualificam como genocídio, foi uma limpeza étnica contra simpatizantes da União do Povo Africano do Zimbábue (ZAPU), que resultou na fusão do partido com a ZANU-PF e valeu a Mugabe sua ascensão à Presidência, já que até então governava como primeiro-ministro.

Apesar disso, Mnangagwa afirmou que nos últimos tempos tinha ficado "suave como a lã". No funeral de seu irmão, em 2010, disse: "Para nós que fomos instruídos a destruir e matar e vimos a luz nos últimos anos das nossas vidas, a nossa recompensa está no céu".

No entanto, o novo líder da ZANU-PF parecia ter em mente outra recompensa mais terrena: seu nome esteve vinculado há anos a possíveis pactos e conspirações para acabar com o reinado de Mugabe para se tornar chefe de Estado.

Estas teorias, unidas às que o colocavam como um paciente candidato a suceder o ainda presidente, de 93 anos, após sua morte, provocaram a ira de Grace Mugabe, que também sonhava em herdar a presidência das mãos do seu marido.

Após Mnangagwa conseguir em 2014 uma vice-presidência que a primeira-dama acreditava ganha, Grace iniciou uma campanha pública de desprestígio contra ele até tal ponto que ela encarou como uma ameaça velada uma foto publicada em tom jovial na qual o político levantava uma caneca com a inscrição: "Eu sou o chefe".

A campanha teve seu ponto crucial quando Mnangagwa foi hospitalizado com urgência apresentando sintomas de envenenamento após um comício de Grace Mugabe, o que o então vice-presidente considerou como uma tentativa de assassinato.

No dia seguinte, ele foi destituído. Grace Mugabe interpretou o seu silencioso exílio como uma vitória, mas os velhos aliados de Mnangagwa nas Forças Armadas mal esperaram uma semana para se levantar contra o governo e deter o presidente, a primeira-dama e seus ministros em resposta às tensões no seio da ZANU-PF.

O nome de Mnangagwa agora sai na frente em todas as apostas para liderar um governo transitório de concentração até as eleições presidenciais do ano que vem, nas quais tentará realizar seu sonho de se tornar o presidente do Zimbábue depois de eliminar de uma vez por todas seus adversários políticos.

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