Pacotes de comida distribuídos em tumulto no Marrocos custavam R$ 50

Rabat, 20 nov (EFE).- Os pacotes de ajuda alimentícia que foram distribuídos ontem em um tumulto que causou a morte de pelo menos 15 pessoas no sul do Marrocos tinham um valor de 150 dirhans (R$ 50), afirma nesta segunda-feira o jornal "Ajbar al Yawm".

Os pacotes continham vários quilos de farinha, açúcar e uma garrafa de óleo, e foram preparados por um benfeitor local, um religioso chamado Abdelkabir Hadadi, originário da mesma região onde se encontra Sidi Bulilam, palco do incidente, no qual as vítimas foram esmagadas e asfixiadas até a morte.

O jornal "Al Ahdath al Magrebiya", por sua vez, aponta que foram 18 mortos, todos mulheres, e que este elevado número se deve, em parte, porque não foram enviadas ambulâncias suficientes, e os feridos mais graves foram levados em helicópteros até a cidade de Essaouira, onde fica o hospital mais próximo, a cerca de 50 quilômetros.

O mesmo jornal diz que em frente ao armazém onde seriam distribuídos os alimentos havia aproximadamente 1.500 pessoas aglomeradas, que forçaram o portão de entrada e entraram em alvoroço, momento em que algumas delas caíram no chão e foram esmagadas pela multidão.

Por sua vez, o jornal "Asabah" acrescenta que no tumulto também foram registradas duas tentativas de estupro, e que há um bebê entre os mortos.

A distribuição de alimentos foi organizada por Hadadi, que estava no terraço do armazém fazendo imagens do ocorrido e supostamente fugiu após a tragédia, sendo ativamente procurado pela polícia.

Vários veículos de imprensa afirmam que ações humanitárias similares acontecem a cada ano nesse mesmo local e que a de ontem contava com a presença de agentes de segurança e de forças auxiliares, mas por razões desconhecidas a organização falhou.

Há uma dupla investigação em andamento: uma penal, ordenada pela Procuradoria; e outra administrativa, organizada pelo Ministério do Interior, que prometeu dar informações sobre "todas as conclusões e as medidas adotadas" em seu termo.

O representante da Associação Marroquina de Direitos Humanos (AMDH) em Marraquexe, Omar Arbib, disse à Agência Efe que essa distribuição de alimentos era organizada pela quinta vez no local, e que o previsto era que a ação beneficiasse 2.500 pessoas.

Arbib disse suspeitar que por trás dessa operação beneficente existem "fins políticos de exploração da miséria", especificamente de grupos de ideologia islamita, e exigiu que o Estado assuma suas responsabilidades na luta contra a pobreza, ao invés de deixá-la nas mãos de benfeitores.

O representante da AMDH acrescentou que a cidade onde aconteceu a tragédia não está localizada em uma região montanhosa ou isolada, mas "carece de todo tipo de infraestruturas, sejam escolas, hospitais ou estradas", enquanto no hospital mais próximo, em Essaouira, também faltam alguns dos equipamentos mais básicos.

As mortes de ontem trouxeram à tona a pobreza existente em várias zonas rurais do Marrocos: o órgão estatístico oficial Alto Comissariado para o Plano (HCP) afirmou no mês passado que há no país 3,9 milhões de pessoas que sofrem de "pobreza multidimensional", quase todas elas em áreas rurais.

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