PUBLICIDADE
Topo

Internacional

Brasil espera justiça 30 anos depois de assassinato de missionário espanhol

28/11/2017 17h14

Rio de Janeiro, 28 nov (EFE).- O único acusado ainda vivo do assassinato há 30 anos do missionário e jesuíta espanhol Vicente Cañas, morto violentamente por sua firme defesa de uma reserva indígena amazônica, será julgado a partir desta quarta-feira em processo no qual os indigenistas do Brasil esperam finalmente justiça.

"A esperança de conseguir justiça é a última coisa que se perde e por isso estamos trabalhando arduamente para conseguir que o júri o condene apesar de tanto tempo", disse à Agência Efe a advogada Carolina Hilgert, quem atua como assistente da acusação no processo em representação dos familiares do espanhol.

Carolina, contratada pelo Conselho Missionário Indigenista (CIMI), admitiu que "é difícil que depois de tantos anos se alcance a pena esperada", mas acrescentou que ainda não perde as esperanças de que se faça justiça neste caso emblemático.

A audiência final do julgamento será aberta amanhã em um tribunal de Cuiabá deve durar até quinta-feira.

No banco dos réus estará o delegado da Polícia Civil aposentado Ronaldo Antonio Osmar, o único dos seis acusados que continua vivo três décadas depois do crime e que já foi absolvido por falta de provas em um julgamento realizado em 2006.

Cañas, nascido em 1939 em Alborea (Albacete, Espanha), chegou como missionário ao Brasil em janeiro de 1966, cinco anos depois de entrar para a Companhia de Jesus, e passou por diferentes comunidades indígenas até se estabelecer em uma aldeia dos Enawenê-Nawê, onde viveu como um deles e a quem se uniu na defesa de suas terras.

Sua posição em defesa da criação de uma reserva para esta comunidade contrariou grandes fazendeiros interessados em aumentar suas áreas de cultivo no estado do Mato Grosso.

O espanhol foi assassinado a punhaladas após ser violentamente agredido (seu crânio estava fraturado e seus órgãos genitais tinham sido arrancados) aparentemente por fazendeiros aos quais contrariava.

No dia 5 de abril de 1987, em sua última comunicação por rádio com os missionários que estavam em Cuiabá, o jesuíta avisou que retornaria à aldeia dos Enawenê-Nawê de uma cabana na qual costumava se refugiar para fazer retiros espirituais.

Nunca mais se soube dele até 16 de maio, 40 dias depois, quando seu corpo foi encontrado mumificado perto da cabana que construiu como refúgio às margens do rio Juruena e a cerca de 60 quilômetros da aldeia em que vivia.

Dos seis acusados do homicídio, dois morreram antes do julgamento, outros dois tiveram seus casos suspensos por terem mais de 80 anos e também morreram, e os únicos dois levados ao tribunal foram absolvidos em 2016 por suposta falta de provas.

Primeiro absolvido foi Osmar, a quem a Promotoria acusa de ter sido o intermediário entre os fazendeiros que ordenaram o assassinato e os homens que o executaram, e poucos dias depois foi libertado o agricultor José Vicente da Silva, acusado de ser um dos autores do crime e que também morreu.

No primeiro julgamento, a acusação baseou todo o caso nos testemunhos de três índios que disseram ter escutado terceiros sobre um complô contra o missionário espanhol.

Mas o júri não considerou estes testemunhos como provas suficientes e absolveu o primeiro dos réus por seis votos contra um e o segundo por cinco votos contra dois.

"Apresentamos um recurso no qual pedimos a anulação do primeiro julgamento pela decisão do júri de não levar em conta as provas. Conseguimos uma vitória e por isso agora temos um novo julgamento e um novo júri", afirmou Carolina.

Em sua condição de assistente da acusação, o CIMI, vinculado ao Episcopado da Igreja Católica no Brasil e do qual Cañas foi um dos fundadores, acompanhou todo o processo.

"Agora tudo está nas mãos do novo júri. Após tanto tempo, ter uma oportunidade de conseguir justiça é uma vitória", acrescentou a advogada, para quem o acusado, apesar de sempre responder ao processo em liberdade, pelo menos recebeu como punição ter que continuar se defendendo na Justiça por 30 anos.

Nesta quarta-feira, no primeiro dia do novo julgamento, serão ouvidas as testemunhas de ambas as partes, assim como o réu será interrogado.

Internacional