Campanha governamental deixa milhares de pessoas sem lar em Pequim

Leticia Pastor.

Pequim, 28 nov (EFE).- Milhares de pessoas, muitas delas migrantes, estão sendo desalojadas de suas casas em vários subúrbios de Pequim como parte de uma campanha governamental para aumentar a segurança, depois que um incêndio causou a morte de 19 pessoas, sendo oito crianças, há dez dias na capital chinesa.

O trágico fato levou o governo chinês a lançar uma campanha de 40 dias para inspecionar as medidas de prevenção de incêndios dos imóveis da cidade e seus subúrbios, que acabou se tornando um despejo em massa de milhares de pessoas de suas casas, a maioria trabalhadores migrantes.

"Em 23 de novembro penduraram um anúncio no meu edifício que dizia que as pessoas tinham que sair antes do dia 27 e que se não fôssemos embora cortariam a luz, a água e o gás", explicou nesta terça-feira à Agência Efe Wang Xia, uma mulher de 37 anos que usa um nome fictício.

Wang, que vivia no bairro de Huangcun (no sul da capital) há quatro anos, ocupava até ontem, junto com seu marido e seus dois filhos adolescentes, um pequeno conjugado com uma cama de casal e uma cozinha - mas sem banheiro -, pelo qual pagava 1.450 iuanes mensais (pouco mais de R$ 700).

Neste tipo de imóvel não é comum assinar um contrato de aluguel, embora Wang reconheça ter tido sorte com seu senhorio, que se comprometeu a devolver parte do dinheiro adiantado.

Na nota informativa divulgada pelo Escritório de Inspeção e Segurança, também era exigido o fechamento de qualquer negócio, o que gerou protestos dos comerciantes da região, não só pelas perdas econômicas, mas porque muitos dos seus empregados se alojavam nas imediações.

Mas a indignação foi além dos afetados, e na última sexta-feira mais de cem intelectuais chineses, inclusive acadêmicos, advogados e artistas, enviaram às autoridades uma carta na qual exigiam o fim da campanha, que qualificaram como "impiedosa" e "contra os direitos humanos".

"Pequim tem a obrigação de ser grata a todos os cidadãos chineses (...) ao invés de tratá-los com arrogância, discriminação e humilhação", diz o documento.

Na carta, que circula na internet, é destacado que a capital chinesa não chegou a ser o que é hoje unicamente graças aos pequineses, mas a todos os milhares de trabalhadores migrantes que chegam a cada ano de todos os pontos da China.

A emigração do campo para a cidade não é livre na China, mas dezenas de milhões de trabalhadores "driblaram" as leis do país para atender as gigantescas necessidades da indústria e da construção durante o boom econômico.

O líder do Partido Comunista da China (PCCh) em Pequim, Cai Qi, falou ontem publicamente pela primeira vez sobre o assunto para reconhecer que o processo tem sido conduzido de forma "acelerada".

Em reunião municipal sobre temas de segurança, Cai afirmou que os que serão despejados "deveriam receber mais tempo para sair", mas também defendeu a necessidade de manter a iniciativa para evitar "grandes e descuidados perigos", publicou nesta terça-feira o jornal de Hong Kong "South China Mornig Post".

Os internautas chineses também fizeram muito barulho. "Os graduados universitários que quiserem vir a Pequim terão que pensar duas vezes; talvez esta cidade não lhes dê as boas-vindas", ironizava um usuário na rede social Weibo, o Twitter chinês, enquanto outros atacavam a gestão das autoridades.

No entanto, nos últimos dias também houve espaço para a solidariedade. No WeChat, o serviço chinês de mensagem instantânea, centenas de pessoas oferecem aos afetados abrigo, trabalho e transporte através de diferentes grupos de ajuda.

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