Resistência popular palestina à ocupação israelense perde força

María Sevillano.

Ramala (Cisjordânia), 3 dez (EFE).- Desde 2002, parte dos esforços palestinos contra a ocupação israelense foram canalizados através dos Comitês de Luta Popular, que protestam contra os avanços de uma Palestina livre e independente, mas que nos últimos anos perderam força e atividade.

Estes grupos, que seguem o preceito da "resistência não violenta" e possuem um grupo de coordenação, surgiram na Cisjordânia, inspirados nos movimentos populares da Primeira Intifada (1987), quando aconteceram manifestações, desobediência econômica e civil, e organização social e institucional através de representações locais.

"É um de nossos direitos optar pela resistência armada, mas nós escolhemos a não violência", explica à Agência Efe Mundher Amira, coordenador geral dos Comitês que, com essa estratégia, tenta envolver palestinos de todas as origens e conseguir legitimidade internacional.

Os grupos nasceram como resposta à iniciativa israelense de erguer o muro de separação nos territórios ocupados e parcialmente construído em terras palestinas, agrícolas em sua maioria, que foram confiscadas das comunidades.

"Além de realizar ações diretas, como os protestos, plantamos árvores, ajudamos os agricultores palestinos a fazer as colheitas, levamos energia às comunidades beduínas, empoderamos às mulheres, damos assistência legal e ensinamos crianças", enumera ele.

As atividades, que demandam "gente no local", sintetizam e destacam que a solidariedade internacional, incluindo as visitas de ativistas estrangeiros, são um dos pontos de apoio. No entanto, o engajamento de locais e pessoas do exterior foi desaparecendo.

Há alguns anos, eram várias as manifestações que aconteciam todas as sextas-feiras na Cisjordânia, reunindo ativistas contra a ocupação e com a cobertura de dezenas de jornais e TVs. Algumas foram parar nas páginas de jornais internacionais ou foram temas de documentário, como a ação de se amarrar nas oliveiras para que elas não fossem arrancadas ou quando ativistas se pintaram de azul e foram para o muro, na época do lançamento do filme "Avatar".

Muitos desses protestos acabaram em atos de violência, quando os manifestantes arremessavam pedras nos soldados, e eles respondiam com materiais anti-distúrbios e, algumas ocasiões, também com fogo real. Agora, os protestos ficaram relegados a poucas comunidades, com poder de convocação muito menor e quase nenhuma presença de estrangeiros.

"É culpa nossa não conseguirmos mobilizar mais gente, especialmente, mais palestinos. Não nos esforçamos o suficiente. Agora, perdemos os palestinos e a solidariedade internacional, principalmente nestes eventos", avalia Amira.

Entre as razões para esta queda na adesão estão a falta de união interna, de esperança e de resultados, de comunicação, as dúvidas sobre o valor das ações e "90% da ocupação israelense com as suas tentativas de restringir o acesso à Palestina, além da deportação de ativistas".

Adriana Ortiz, da ONG Novact, acredita que nos últimos dez anos a Palestina deixou de ser uma prioridade para a comunidade e doadores internacionais e um pouco disso se deve à situação de outros pontos do Oriente Médio, como Iraque, Síria e Líbano. Ela reconhece que a presença de colegas do setor ou de instituições "internacionais em geral" diminuiu, em alguns casos "por limitações na renovação de vistos e de deportações na fronteira", mas afirma existir um aumento no apoio da sociedade civil de fora.

"Em parte isso é liderado pelo BDS (movimento de Boicotes, Desinvestimento e Sanções contra Israel) ao que se somam outras estratégias de apoio à resistência popular palestina", diz.

Israel considera o BDS uma "ameaça estratégica" e sanciona organizações que o apoiem e impede a entrada no país de pessoas físicas que desejem aderir a ele.

Israelense, Kobi é ativista envolvido com os comitês e com os protestos, e também percebe ares de mudança.

"O movimento palestino está sob muita pressão. Israel tem experiência na repressão. Na atual situação, é difícil encontrar coisas efetivas para fazer no terreno. Isto é o que faz do BDS algo tão promissor, porque é um trabalho político sobre o qual Israel não tem controle. Os protestos são bons, porque conectam os movimentos internacionais aos palestinos e durante muitos anos a resistência conseguiu ter manifestações significativas, que demandavam muita energia, mas já tiveram o seu momento", explica.

Segundo ele, agora existe menos a ser feito na região, mas há outras fatores importantes e que deixam a porta aberta a um futuro que, 50 anos de ocupação depois, continua sendo incerto.

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