Ali Abdullah Saleh tentou retomar poder no Iêmen até sua morte

Jorge Fuentelsaz.

Cairo, 4 dez (EFE).- Ali Abdullah Saleh, que morreu nesta segunda-feira assassinado pelos rebeldes houthis, passou os últimos cinco anos de sua vida em busca de alianças que permitissem manter suas chances de retomar o poder no Iêmen, o qual perdeu em 2012, como consequência dos protestos surgidos em 2011 no calor da Primavera Árabe.

Antigo inimigo dos houthis, a quem combateu durante seu longo mandato presidencial (1990-2012), Saleh foi morto hoje por rebeldes que dispararam contra o comboio no qual viajava em um posto de controle quando tentava fugir de Sana, após decidir romper no último fim de semana a aliança tinha os houthis desde 2014.

Nascido em 1942 na cidade de Bayt al Ahmar, Saleh, militar de profissão desde 1958, mostrou suas aspirações políticas em junho de 1974, quando participou do golpe de Estado que derrubou o Conselho da República presidido por Kadi Abdul Rahman al-Iryani.

A partir desse momento, sua carreira decolaria e, em 1978, foi eleito membro do Conselho Provisório Presidencial, vindo a se tornar, meses depois, presidente do Iêmen do Norte e comandante-em-chefe das Forças Armadas.

Após a reunificação do Iêmen do Norte e do Sul, em 22 de maio de 1990, Saleh continuou à frente do Estado reunificado e consolidou ainda mais seu poder após esmagar em 1994, em menos de dois meses, uma revolta soberanista do antigo sul, em uma guerra civil na qual morreram 8 mil pessoas.

Desde então, governou sem rivalidade e reforçou progressivamente um poder cada vez mais autoritário, que tentou disfarçar, como todos os ditadores árabes contemporâneos, de democracia formal, o que o levou a realizar eleições presidenciais com vários candidatos em 1999 e 2006.

Os principais desafios de segurança que enfrentou foram a ameaça do grupo terrorista Al Qaeda, o que o levou a estreitar suas relações com os Estados Unidos, assim como as revoltas protagonizadas em meados de 2004 e em agosto de 2009 pelos rebeldes houthis.

Esse conflito causou dezenas de mortos e não terminou até fevereiro de 2010, quando foi acordado o fim das hostilidades.

Os ares da Primavera Árabe de 2011 surpreenderam Saleh quando já tinha conseguido que o Parlamento aprovasse mudanças provisórias que o permitiam tentar um terceiro mandato presidencial, proibido pela Constituição.

Mas as pressões da oposição, que foi às ruas em 27 de janeiro, o obrigaram a recuar com seus planos de concorrer a novas eleições em 2013.

No entanto, e apesar dos protestos aumentarem, Saleh se negou a escutar as exigências da oposição, inclusive a pedido do Conselho de Cooperação do Golfo, que tentou convencê-lo a renunciar em favor do seu vice-presidente, Abd Rabbuh Mansur Al-Hadi.

Um bombardeio contra o complexo presidencial em 3 de junho de 2011, que quase o matou, não reduziu sua ânsia de se manter no poder, até que finalmente se viu obrigado a renunciar em fevereiro de 2012 devido às pressões internas e da comunidade internacional.

Nesse mesmo mês, transferiu o poder para Al-Hadi depois que este venceu eleições antecipadas em que foi candidato único.

No entanto, Saleh manteve sua influência política e militar através de familiares e aliados políticos que cupavam altos cargos nas instituições do país, como seu filho Ahmed, que não foi expulso do Exército até abril de 2013.

Suas tentativas de impedir a transição política levaram o Conselho de Segurança da ONU a lhe impor sanções em 7 de novembro de 2014 por ameaçar a paz e a segurança e dificultar a transição no Iêmen.

Submetido a cada vez mais pressões, em setembro desse mesmo ano, quando seus antigos inimigos do movimento xiita Ansar Allah, também conhecido como Houthis, tomaram a capital em meio aos protestos contra o governo e o aumento do preço dos combustíveis, Saleh decidiu se unir a eles.

Os protestos foram seguidos de a uma intervenção cada vez maior nos assuntos do poder e finalmente os houthis forçaram a renúncia, em 22 de janeiro de 2015, de Al-Hadi, que um mês depois conseguiria fugir para Áden.

Em março desse ano, uma aliança militar liderada pela Arábia Saudita interveio no conflito armado contra os houthis e seu principal aliado, Ali Abdullah Saleh, que desde então perderam terreno, embora sem perder suas principais fortificações, entre elas Sana.

No último fim de semana, aconteceu na capital a última manobra política de Saleh, que, após confrontos entre combatentes de ambas as facções, rompeu sua aliança com os houthis e mostrou sua disposição para dialogar com Riad, que se apressou para dar-lhe suporte.

Mas os houthis se anteciparam aos seus homens e, quando Saleh tentava fugir, o comboio no qual viajava foi baleado em um posto de controle, pondo fim à sua vida.

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