Assédio torna-se desafio constante na vida das refugiadas na Grécia

Adrià Esteban Weitzmann

Em Atenas

  • Gregorio Borgia/ AP

    5.mai.2016 - Mulher caminha no campo de refugiados em Idomeni, na Grécia

    5.mai.2016 - Mulher caminha no campo de refugiados em Idomeni, na Grécia

Ser refugiado é uma condição que ninguém deseja. Ser refugiada é um agravante. Além das já conhecidas dificuldades pelas quais passam os que fogem de guerras, é preciso acrescentar a discriminação e o assédio sexual que as mulheres que chegam à Europa sofrem.

Durante a estadia por tempo indefinido nos acampamentos gregos, a violência, a insegurança e as doenças são ameaças que elas enfrentam diariamente.

"Nossa experiência mostra que as mulheres refugiadas que viajam sozinhas correm mais riscos de acabar se prostituindo, porque não têm uma rede familiar que as proteja", afirmou Nikitas Kanakis, presidente da seção grega da associação Médicos do Mundo.

O assédio sexual é uma constante na vida das refugiadas, que tem a liberdade de locomoção dentro dos acampamentos condicionada ao medo.

"Alguém me parou, pediu para eu ter relações sexuais com ele e disse que me pagaria", relatou uma do Iêmen, de 31 anos, que quis manter o anonimato à Human Rights Watch (HRW).

Um dos obstáculos mais comuns é o medo de denunciar o agressor, tanto pela falta de amparo legal quanto pelo receio de novas represálias.

Além disso, as mulheres que não têm os documentos em dia e pretendem denunciar o assédio correm o risco de detenção, deportação e punição por carecer de permissão de residência válida. Como se não bastasse, a situação de superlotação na qual as ilhas do Mar Egeu é tamanha - mais de 14 mil refugiados vivem em campos, conforme dados do governo - que muitas não têm outra opção a não ser compartilhar a barraca com desconhecidos.

O clima de desproteção é tanto que, por conta da falta de luz nas instalações, algumas mulheres preferem usar fraldas para não precisar ir ao banheiro e assim evitar possíveis estupros à noite. Na opinião de Nikitas Kanakis, uma forma fácil de dar mais segurança às mulheres nos campos é iluminar os becos.

A higiene no período menstrual é outra das emergências e se torna uma dificuldade a mais quando se vive num acampamento. Além do estigma que cerca o tema e a possibilidade de o sangue vazar e deixar uma mancha aparente, a falta de água corrente e de absorvente aumenta o risco de infecções.

Djamila, de 13 anos, não recebe qualquer tipo de auxílio financeiro e quando entra no período menstrual precisa recorrer a alguma amiga que já tenha o pedido de asilo em fase de tramitação para que ela forneça absorventes.

A insuficiência de banheiros é outra característica dos acampamentos, e apesar de isso também afetar os homens, são as mulheres as que mais sofrem com a situação. Nos depoimentos recolhidos por ONGs as mulheres relatam que precisam defecar no chuveiro, onde podem tirar o hijab para se assear. A presença das fezes provoca desde erupção cutânea até infecção urinária.

Wahida, uma jovem afegã, relata que nos chuveiros do Campo de Moria em vez de se limpar ela precisa se preocupar em não se sujar, já que muitas pessoas usam o espaço como vaso sanitário.

Outro problema é que o acordo feito entre União Europeia e Turquia só concede o status de vulnerabilidade para grávidas, idosos, pessoas doentes, menores desacompanhados e vítimas de tortura, e apenas esses grupos podem ser levados à parte continental. Por não fazer parte do grupo de pessoas com a possibilidade de pedir a transferência, muitas mulheres temem denunciar o assediador, que, contra a vontade, elas continuarão vendo todos os dias.

As grávidas, que são reconhecidos como vulneráveis, ficam propensas a abortos espontâneos ou a parir um bebê já morto devido às condições deploráveis a que ficam expostas diariamente, segundo a HRW.

Rasha, que é da Síria, está prestes a dar à luz e nunca fez um pré-natal. Apesar de o inverno já ter chegado, ela continua morando em uma barraca.

"Ir ao banheiro é muito difícil. Minha barriga está grande e faz muito frio", afirmou ela.

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