Trump agita o mundo em 2017 com uma política externa desconcertante

Lucía Leal.

Washington, 27 dez (EFE).- O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, agitou o mundo em 2017 com uma política externa desconcertante, caracterizada por uma aparente desconfiança sobre fóruns e acordos multilaterais e uma retórica belicosa quanto a alguns países, como Coreia do Norte, Irã, Venezuela e Cuba.

Em seus primeiros 11 meses no poder, Trump rompeu os esquemas tradicionais da política externa americana e os substituiu por uma mistura de nacionalismo e militarismo que desorientou os aliados dos EUA e encorajou seus rivais.

Os contornos da doutrina de Trump foram tomando forma ao longo do ano e deram conteúdo ao lema "os EUA primeiro", que Trump lançou durante a campanha eleitoral.

Seus principais elementos parecem ser "a proteção das fronteiras americanas, a defesa da soberania acima dos acordos multilaterais e um importante impulso às Forças Armadas", explicou à Agência Efe um especialista em política externa na American University de Washington, Gordon Adams.

Essa serenidade implica "uma firme rejeição à liderança dos EUA, à ação multilateral e à promoção da democracia" que caracterizaram, em maior ou menor medida, a estratégia diplomática americana desde a Segunda Guerra Mundial, acrescentou.

Trump corroborou essa tendência em seu primeiro discurso na Assembleia Geral da ONU, em setembro, com uma exaltada defesa da soberania nacional frente às interferências externas.

Mas, enquanto promovia essa ideia, o presidente americano condenou duramente os "regimes rebeldes" do mundo e ameaçou "destruir totalmente" a Coreia do Norte e intervir militarmente na Venezuela.

Sua escalada retórica com o líder norte-coreano, Kim Jong-un, manteve o mundo atento durante quase todo o ano, e suas fortes ameaças não convenceram Pyongyang a parar com seus testes de mísseis.

"O tempo dirá se as duras palavras de Trump atraem a atenção global às ameaças comuns e ajudam a resolvê-las, ou se simplesmente aumentam as tensões e a probabilidade de guerra", disse à Efe um professor de política e direito internacional na Universidade Atlântica da Flórida, Jeffrey S. Morton.

Se o presidente americano Theodore Roosevelt (1901-1909) recomendava "falar com calma, mas levar um grande garrote", Trump "fala alto e leva um trabuco", algo que mantém o mundo em constante estado de alerta, disse Adams.

Durante sua primeira excursão estrangeira, em maio, Trump deixou perplexos seus aliados europeus ao não reafirmar o compromisso americano com o artigo 5 do tratado da Otan, que contempla a defesa mútua em caso de ataque, embora depois tenha tentado corrigir esse erro.

Trump também expressou seu desdém por outras duas grandes estruturas multilaterais: o Acordo de Paris contra a mudança climática e o pacto nuclear firmado em 2015 com o Irã e outras cinco potências.

Ao anunciar em junho sua saída do pacto climático, Trump isolou os EUA de um consolidado consenso internacional e, ao ameaçar em outubro abandonar o acordo nuclear iraniano se seus "defeitos" não fossem corrigidos, pôs em risco o futuro do pacto.

Pouco antes do fim do ano, Trump fez aumentar a tensão no Oriente Médio ao reconhecer Jerusalém como a capital de Israel e ordenar a mudança da embaixada americana para lá, uma medida que complica o futuro de Washington como mediador do conflito entre israelenses e palestinos.

Trump também indignou o mundo árabe com seu veto migratório aos cidadãos de seis países de maioria muçulmana, que entrou em vigor apesar de vários litígios nos tribunais dos EUA.

Na América Latina, Trump combinou um desinteresse geral pelo continente com uma atitude hostil em relação aos imigrantes e os pactos comerciais, que debilitou a tradicional aliança com o México.

No caso de Cuba e Venezuela, "as políticas de Trump foram mais guiadas por objetivos punitivos de curto prazo do que por uma estratégia de mudança política a longo prazo", argumentaram os especialistas na região Christopher Sabatini e William Naylor, em um ensaio publicado em novembro na revista "Foreign Affairs".

Além de dificultar as viagens e o comércio com Cuba, Trump se deixou levar pela linha dura do anti-castrismo em sua reação aos "ataques acústicos" contra diplomatas americanos em Havana, ao deixar a embaixada americana na ilha quase vazia e expulsar 17 funcionários cubanos dos EUA apesar das dúvidas sobre o ocorrido.

Trump citou as violações de direitos humanos na Venezuela e em Cuba como justificativa para suas sanções, mas esse argumento soa "pouco sincero" quando se compara com o seu silêncio diante dos abusos em "Filipinas, Rússia ou Turquia", indicaram Sabatini e Naylor.

Se continuar em 2018, a doutrina de Trump "acelerará o reequilíbrio do poder global" a favor de "potências emergentes como a China, a Índia, o Irã e a Rússia", à medida que o mundo "deixa de procurar liderança" nos EUA, desinteressados no plano multilateral, previu Adams.

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