Dissolução da Tchecoslováquia completa 25 anos

Gustavo Monge.

Praga, 1 jan (EFE).- A Tchecoslováquia deixou de existir no primeiro dia de janeiro de 1993, no que se conhece como "Divórcio de Veludo", decidido de forma amistosa pelos líderes tchecos e eslovacos, mas sem consultar a população.

Por razões linguísticas, históricas e culturais, os dois países seguem hoje, 25 anos depois, muito unidos dentro de uma nova casa comum, a União Europeia (UE), à qual pertencem desde 2004.

Após a modelar transição do comunismo à democracia em 1989, conhecida como a "Revolução de Veludo", saíram à luz tensões sufocadas sob a ditadura, como o crescente nacionalismo eslovaco, crítico com o "centralismo" e a "arrogância" de Praga, a capital federal.

A união do Protetorado da Boêmia e Morávia com a Eslováquia tinha se mantido desde 1918 - salvo durante a Segunda Guerra Mundial -, mas a convivência dentro da federação não despertava grande entusiasmo.

A Eslováquia, que sempre tinha sido menos desenvolvida, criticava que a parte tcheca da federação monopolizava a maior parte dos investimentos, entre outros aspectos, enquanto os tchecos se queixavam das transferências aos seus vizinhos pobres.

Após o fim do comunismo foram cogitadas distintas fórmulas para gerir o Estado comum, com os eslovacos exigindo uma confederação e os tchecos apostando em uma união mais estreita.

Apesar da língua e da cultura, existem consideráveis diferenças: enquanto a Boêmia e a Morávia são urbanas, laicas e liberais, a Eslováquia é mais conservadora, rural e o catolicismo é parte da identidade nacional.

No final, as aspirações nacionais eslovacas levaram à divisão com uma declaração de independência do parlamento da Eslováquia em 17 de julho de 1992, acolhendo-se ao direito de autodeterminação do preâmbulo da Carta Magna de 1990.

Os dois gerentes da separação, o economista neoliberal Vaclav Klaus, primeiro-ministro do governo tcheco, e o advogado ultranacionalista Vladimir Meciar, à frente do Executivo eslovaco, combinaram a repartição do patrimônio federal em menos de seis meses.

Os bens do dissolvido Estado se repartiram com um cálculo de 2 por 1 a favor dos tchecos, uma vez que a República Tcheca conta com 10,5 milhões de habitantes e a Eslováquia com apenas 5,5 milhões.

Até mesmo o antigo hino estatal foi dividido: a primeira parte para os tchecos e a segunda para os eslovacos.

A divisão ocorreu de forma amistosa e sem violência, bem diferentes das guerras vividas na antiga Iugoslávia.

Mas, como acostuma acontecer também nos divórcios entre casais, ninguém consultou as "crianças" - neste caso a população - que em nenhum momento chegou a apoiar majoritariamente a separação.

Uma petição popular reuniu inclusive 2,5 milhões de assinaturas para exigir um referendo, embora também não tenha havido protestos para impedir a divisão.

Com os dois países hoje na OTAN e na UE, e cifras de crescimento econômico e emprego invejável, alguns se lembram, no entanto, de que o início do caminho não foi fácil, sobretudo para a Eslováquia.

O "pai da nação eslovaca", Vladimir Meciar, empreendeu nos primeiros anos da independência um caminho autoritário, que isolou e afastou o país da integração europeia.

Apenas após a chegada ao poder em 1998 do liberal conservador Mikulas Dzurinda, a Eslováquia iniciou uma frenética série de reformas que permitiram sua entrada na UE no mesmo ano em que a vizinha República Tcheca.

Ainda que ao início da separação os tchecos estivessem muito à frente dos eslovacos em relação ao conforto econômico, a diferença se reduziu substancialmente.

O Produto Interno Bruto (PIB) per capita da República Tcheca alcançou 90% da média comunitária em 2017, não muito mais que o da Eslováquia, com 78%, segundo dados da Comissão Europeia.

Em um encontro em meados de dezembro em Praga, tanto Klaus como Meciar justificaram a separação de 1993 como "inevitável".

Além disso, Klaus destacou que o divórcio tcheco-eslovaco foi "exemplar".

"Em nenhum momento nos deixamos levar por atritos e sabíamos que era necessário ceder e fazer compromissos. O desenvolvimento destes 25 anos nos deu razão", assegurou o ex-presidente tcheco.

Meciar, por sua parte, acrescentou que "até hoje não há na Europa dois Estados que se sintam tão próximos".

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