Uma história de amor entre um rohignya e uma rakain em tempos de ódio

Gaspar Ruiz-Canela.

Bangcoc, 5 jan (EFE).- Saw Yedul Islam era um jovem de família abastada quando se apaixonou pela sua vizinha, no oeste de Mianmar, uma história de amor comum se não fosse por ele pertencer à minoria muçulmana rohingya e ela, uma rakain budista.

Saw e sua agora esposa, que esconde o nome por medo de represálias contra sua família, começaram a flertar em uma aldeia no norte do estado Rakhine, o marco zero da limpeza étnica orquestrada pelo exército birmanês contra os rohingyas.

Em uma entrevista à Agência Efe, o rohingya, de 30 anos, relatou à odisseia desde que se apaixonaram, há sete anos, fugiram para Bangladesh para se casar e viajaram separados à Tailândia, onde agora vivem sem documentos junto com seu filho de seis anos.

Eles podiam passear lado a lado discretamente, apesar da crescente tensão entre suas duas comunidades em Rakhine, uma faixa costeira ao lado de Bangladesh.

Em uma das regiões mais pobres do país, tanto entre os rakain como entre os rohingyas, suas famílias desfrutavam de uma confortável posição econômica e eram proprietários de lojas de telefonia móvel.

Diante da impossibilidade de se casarem em Mianmar, o casal decidiu fugir para Bangladesh para se casar em 2012, mesmo ano em que a violência sectária provocou dezenas de mortes e 140 mil deslocados, a maioria rohingyas, em Rakhine.

Nesse momento eles separaram seus caminhos. Saw embarcou com 500 rohingyas em uma perigosa viagem pelo mar até a Tailândia, após pagar US$ 250 (quase R$ 800) por cabeça a um grupo de traficantes de pessoas.

A travessia em um barco de pescadores durou uma semana através do golfo de Bengala e do mar de Andaman.

"Quase não podia andar. Comíamos uma vez a cada dois dias, uma pequena porção de arroz e pouca água", contou o rohingya através de um intérprete na pequena casa em que vive com sua mulher, de 45 anos, e seu filho, no norte de Bangcoc.

Ao chegar à costa tailandesa, permaneceram imóveis durante 15 dias enquanto os traficantes negociavam com os militares e os guarda-costas tailandeses. Atracaram então em uma ilha deserta, onde os imigrantes e refugiados acabaram com todas as fruta que encontraram.

Os traficantes aproveitaram a noite para levá-los a terra firme em uma barca e os prenderam em um campo clandestino na fronteira com a Malásia, e exigiram de cada um 50 mil bat (mais de R$ 5 mil) para libertá-los.

Finalmente, Saw foi libertado graças à ajuda de Hajee Ismail, diretor da Rohingya Peace Network, uma organização dedicada a ajudar os membros desta comunidade apátrida.

Já sua mulher, que se converteu ao islã e chegou dois anos depois a Bangcoc em uma viagem por terra que começou em Mianmar.

Saw tem trabalho, mas não tem visto e vive constantemente com medo de ser detido pela polícia tailandesa, já que neste país os refugiados não são reconhecidos oficialmente e são tratados como imigrantes ilegais.

Sentados em uma esteira no chão, o pai tenta ensinar com cadernos velhos algo de birmanês e de inglês ao seu filho, que não está na escola por não ter documentação.

Eles não podem voltar a Mianmar, onde mais de 700 mil rohingyas fugiram desde o ano passado após duas campanhas militares qualificadas pela ONU de "limpeza étnica de manual".

Dois dos refugiados são os pais de Saw, que agora estão vivendo em um dos imensos campos de rohingyas em Bangladesh, próximos à fronteira com Mianmar.

A esposa de Saw disse não manter nenhum contato com sua família em Rakhine, exceto algumas ligações para os dois filhos que teve de uma relação anterior.

Ela confessou achar sua vida "muito árdua", mas mantém as esperanças de um dia serem acolhidos na Europa ou nos Estados Unidos, algo difícil de acontecer, já que só 1% dos refugiados é realojado em terceiros países, segundo relatórios da ONU.

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