Prisão, exílio ou silêncio são opções para dissidência no Camboja

Jordi Calvet.

Phnom Penh, 7 jan (EFE).- Prisão, exílio ou silêncio são as opções que restam a opositores, ativistas e críticos ao governo do Camboja, que radicalizou a repressão contra a dissidência a menos de um ano das próximas eleições gerais.

A ilegalização em novembro do Partido para o Resgate Nacional do Camboja (PRNC) culminou em uma ofensiva que começou após os maus resultados do governante Partido do Povo do Camboja (PPC) nas eleições locais de junho.

A medida, solicitada pelo primeiro-ministro, Hun Sen, se seguiu à detenção do líder opositor, Kem Sokha, depois que este apareceu em um vídeo dizendo contar com assessoria estrangeira para vencer nas urnas.

Ao juiz, o documento pareceu suficiente para ditar a acusação de traição contra Sokha para prendê-lo e provocar uma debandada para o exílio de altos cargos do PRNC, partido que teve mais de cem componentes inabilitados.

"Os altos cargos não podem se envolver em atividades políticas, por isso que foram completamente silenciados", disse à Agência Efe a chefe de relações públicas do PRNC e filha de Sokha, Monovithya Kem, em um email enviado dos Estados Unidos.

Também foram presos Yeang Sothearin e Uon Chhin, dois ex-jornalistas de "Rádio Free Asia", emissora financiada pelos Estados Unidos, acusados de espionagem por "facilitar informação a um estado estrangeiro".

As detenções aconteceram em novembro, dois meses depois que esta, a "Voice of America", 20 emissoras locais e o jornal "Cambodia Daily" tiveram que fechar por supostas dívidas com a Fazenda ou não cumprimento do contrato com o governo.

Argumentos parecidos serviram para proibir a atividade de ONGs, como a norte-americana National Democracy Institute (NDI), dedicada à promoção da democracia, e a ecologista Mother Nature, que tem dois ativistas presos preventivamente.

Outras, como o Politikoffee, um fórum organizado por jovens para debater sobre política, economia e assuntos sociais, decidiram suspender temporalmente suas atividades.

"A situação atual não é como antes, não há um entorno adequado para as nossas atividades (...) Não há respeito à liberdade de expressão. As pessoas não falam, não querem dizer nada", disse à Agência Efe Noan Sereiboth, um dos impulsores do fórum.

A maioria dos analistas concorda em ver por trás desta última campanha contra opositores as eleições gerais de 29 de julho, as sextas desde o estabelecimento da democracia em 1993, e o temor do PPC de perdê-las.

Durante o último ano, Hun Sen advertiu sobre o risco de guerra civil se for tirado do poder pelas urnas e sobre o que chama de "revolução de cor" para prevenir a repetição dos protestos que se seguiram à sua apertada vitória eleitoral de 2013.

O diretor do NDI, John S. Cavanaugh, disse à Agência Efe que o PPC sabia pelas suas próprias pesquisas que o PRNC estava em posição de poder ganhar.

"Hun Sen não ia permitir", assegurou Cavanaugh, que acusou o governo de utilizar o sistema judicial como arma para se livrar da oposição política.

"O 'império da lei 'se tornou recurso de defesa habitual do governo quando é acusado de violação de direitos", explicou o representante da Comissão Internacional de Juristas no Sudeste da Ásia, Kinglsey Abbott.

O jurista apontou que, enquanto no passado os opositores enfrentavam desaparecimentos forçados e assassinatos, hoje o governo cambojano "ficou mais astuto" e atinge o mesmo propósito com os tribunais.

"Em casos políticos, a independência judicial é virtualmente inexistente", ressaltou Abbott, que acredita que nestas condições as próximas eleições não deveriam ser reconhecidas pela comunidade internacional.

A campanha contra a oposição foi recebida com duras críticas dos EUA e da União Europeia (UE), que anunciaram a retirada de ajuda à comissão eleitoral para organizar a votação de julho, represálias perante as quais Hun Sen se mostrou desafiador.

"Juntos continuamos protegendo a paz e mantendo uma perfeita estabilidade política e social para avançar no desenvolvimento do país", disse o governante que está há mais tempo no poder no sudeste asiático, uma vez que o ocupa desde 1985, em sua mensagem de Ano Novo.
 

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