Filha de repressor na ditadura argentina diz que rezava para pai morrer

Buenos Aires, 10 jan (EFE).- Filha do ex-policial na ditadura argentina Miguel Etchecolatz, condenado por genocídio e crimes contra a humanidade, Mariana Dopazo publicou nesta quarta-feira uma carta em que relata o horror que viveu junto com "um dos maiores genocidas da história": o próprio pai.

"Rezávamos para que meu pai morresse" é o título da carta que Mariana divulgou no portal 'La Garganta Poderosa' em resposta à decisão do tribunal que concedeu prisão domiciliar ao pai condenado em seis julgamentos, quatro deles à prisão perpétua por assassinatos cometidos durante a ditadura argentina (1976-1983).

Mariana, de 47 anos, escreveu sobre as más lembranças que teve do pai durante a infância e que a fizeram, inclusive, rejeitar o sobrenome Etchecolatz em 2016, quando a Justiça autorizou a mudança na identidade.

"Justo e reparador seria que Miguel Osvaldo Etchecolatz ficasse em uma prisão comum até o final de seus dias, porque ninguém pode me vender o discurso do velhinho doente que merece ir para casa", afirmou ela em um trecho da carta.

Mariana também informou que sua mãe, esposa de Etchecolatz, acreditava que era impossível ser concedida prisão domiciliar ao marido até que ele foi chamado e "tudo se transformou em silêncio".

Etchecolatz foi responsável pela Direção Geral de Investigações da Polícia de La Plata, cidade da região metropolitana de Buenos Aires, de 1976 a 1978, na época do regime militar. Naqueles anos, ele matou perseguidos políticos, segundo admitiu anos depois durante um julgamento em que disse não lembrar de quantos assassinou.

A autora da carta lembrou como foi sua infância ao lado do pai, a quem descreveu como "um dos maiores genocidas da história, cercado de armas, com custódia policial e vivendo dentro de uma bolha".

"Minha pior lembrança da infância representa um sofrimento permanente: cada vez que meu pai retornava da Direção Geral da Polícia, eu e meu irmão Juan nos trancávamos dentro de um armário para rezar para que ele morresse no caminho", narrou.

Mariana também reconheceu ter crescido no meio de situações traumáticas por se tratar de "viver com Etchecolatz e não ter paz, fazer o que ele dizia e se acostumar com o medo de abrir a boca".

A filha do repressor descreveu o pai como um narcisista, de quem apanhava quando criança e ouvia: "olhe o que você me fez fazer com você", algo que ela nunca gostou de contar a ninguém.

Na carta, Mariana atribui a Etchecolatz um duplo silêncio por ele nunca ter contribuído com detalhes dos crimes à Justiça e nem ter falado a respeito com os familiares.

"Não se negocia a dor e nem se silencia o horror", escreveu ela ao se referir aos benefícios de prisão domiciliar e redução de pena.

"Aos meus 47 anos, jamais achei que sofreríamos tal retrocesso nos direitos humanos, mas a força popular é enorme e deve continuar crescendo até botar cada um desses animais atrás das grades", finalizou.

No dia 27 de dezembro, a justiça argentina liberou o ex-policial para cumprir prisão domiciliar na cidade de Mar del Plata, que pertence a província de Buenos Aires.

A defesa de Etchecolatz tinha solicitado o benefício, alegando "novas patologias crônicas, hipertensão e adenoma da próstata, que precisa de cauterização permanente" e diagnóstico de "deterioração cognitiva irreversível".

A decisão judicial provocou polêmica entre a população argentina, que convocou várias manifestações em protesto a prisão domiciliar de Etchecolatz.

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