Protestos e divisões sociais marcam 7º aniversário da revolução na Tunísia

Javier Martín.

Túnis, 14 jan (EFE).- Milhares de tunisianos lembraram neste domingo o sétimo aniversário da queda da ditadura de Zine El Abidine Ben Ali com diversos protestos independentes que evidenciam as crescentes divisões sociais no país.

Na avenida Habib Bourguiba de Tunís, capital do país, coração do movimento que surpreendeu o mundo e deu início à "Primavera Arábe, grupos progressistas e seguidores do partido islamita Ennahda faziam passeatas em direções opostos.

Os primeiros, que gritavam que "os jovens querem outra revolução", afirmavam que a situação econômica e social do país é a mesma de antes da queda do regime, exigindo que o governo de Beji Caïd Essebsi abandone as atuais políticas de austeridade.

"Pedi trabalho e me dizem que não há trabalho. Pedi um simples lugar onde possamos fazer cinema ou teatro, e me dizem que não há. Hoje vim para a rua defender meus direitos", disse em entrevista à Agência Efe Hassan Jethri, um dos manifestantes.

"Esses cachorros do Ennahda estão acabando com o país. Quero enviar uma mensagem ao presidente: você não poderá calar o povo. O povo o conhece e não se calará", completou.

No outro extremo da avenida, os simpatizantes do Ennahda, com mais recursos e melhor organizados, curtiam com entusiasmo o espetáculo realizado pelos líderes do partido.

"Somos os jovens da revolução, os que pediram a saída de Ben Ali. Isso já é uma tradição, celebrar a revolução que fizemos. Apesar das dificuldades e da situação econômica, amamos o nosso país e a nossa revolução. Estamos orgulhosos", disse à Efe Echrak Rhouma.

"Na Tunísia há muita chantagem, há muitos partidos políticos que só trabalham para arruinar o país. O Ennahda, o partido político que eu apoio, trabalha para o país. Conhecemos a conjuntura econômica. Mas eles, com a desculpa do problema econômico, dizem que o povo é pobre", acrescentou o manifestante.

Rhouma defendia assim a tese do governo, que acusou os partidos progressistas e movimentos como o "Fesh nastanneu" de organizar, sem motivo, protestos contra o novo orçamento desde o início do ano.

As manifestações, que eram pacíficas até então, ficaram violentas desde a última terça-feira, quando um homem, de 55 anos, morreu após a repressão da polícia em um protesto na cidade de Tebourna.

Desde então, mais de 800 pessoas foram detidas, não só vândalos e radicais, mas também ativistas e jornalistas, em uma aparente campanha de intimidação denunciada por organizações locais e internacionais de defesa dos direitos humanos.

"Eles votaram o novo orçamento e agora saem às ruas para se manifestar contra ela. Isso é hipocrisia e chantagem. Você pode ver quem está ao lado do povo", criticou Rhouma.

O Ennahda é um dos menos interessados que os protestos contra a austeridade continuem e ganhem envergadura como as manifestações que culminaram na revolução de 2011. O movimento poderia acabar com a estratégia política do partido no médio prazo.

Aliado na atual coalizão de governo do Nidaa Tounes, o Ennahda controla o parlamento e quer vencer as eleições municipais previstas para maio, a primeira desde a vitória na revolução há sete anos.

Se os resultados das pesquisas forem confirmados, um triunfo no pleito colocaria o partido em uma posição privilegiada para disputar a presidência do país em 2019.

Os protestos também não interessam ao governo, à União Europeia e aos países vizinhos, que temem que eles sejam utilizados pelos movimentos jihadistas para tentar desestabilizar o país.

No entanto, a Frente Popular, principal grupo de oposição na esquerda, e outros movimentos sociais confirmaram hoje à Efe que seguirão convocando mobilizações até a revogação do orçamento.

Para conter o ambiente de tensão, o governo anunciou ontem que reajustará o auxílio estatal das famílias mais necessitadas e amenizar os efeitos dos ajustes fiscais exigidos pelo Fundo Monetário Internacional.

O FMI concedeu ao governo da Tunísia um empréstimo de 2,5 bilhões de euros, que deve ser pago em um prazo de quatro anos, em troca de uma reformas fiscais, cortes e estrita austeridade.

A receita não serviu para resolver os problemas estruturais da economia tunisiana - corrupção e desemprego -, acentuando a inflação e o empobrecimento de grande parte da população, que sete anos depois voltou às ruas para exigir justiça social.

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