Sair ou ficar preso? Refugiados africanos vivem drama de asilo em Israel

Joan Mas.

Tel Aviv, 14 jan (EFE).- A população migrante de Israel vive uma encruzilhada recente por causa da aprovação, pelo governo, de um plano em que 35 mil a 40 mil pessoas terão de deixar Israel e tentar ir para um outro país ou aceitar ficar detida por tempo indeterminado.

"Se, no final, eu for obrigado a sair, terei que ir para a prisão", lamentou à Agência Efe Anwar Souleymane, que é do Sudão e vive em Israel desde 2008.

Souleymane pediu proteção internacional em 2013, mas depois de quase cinco anos ainda não recebeu resposta do governo de Israel e só consegue permanecer no país por renovar o visto de residência a cada três meses.

"Não posso voltar ao meu país e nem tenho outro lugar para onde ir", declarou Barkat Gavrichristos, nascido na Eritreia, enquanto passeava pelas ruas do sul da cidade de Tel Aviv, uma região pobre, cheia de imóveis antigos e destruídos, onde se concentram milhares de imigrantes africanos em risco de deportação.

Assim como Souleymane, Gavrichristos pediu proteção ao Estado há alguns anos, embora sem nenhuma resolução até o momento, nem muita esperança de ser aceito como refugiado em Israel.

"Em 99,9% dos casos, a população do meu país tem o pedido de asilo recusado", disse o rapaz eritreu de 29 anos, que trabalha lavando pratos em um restaurante da região metropolitana de Tel Aviv.

A maioria dos africanos que vive em Israel entrou clandestinamente pela península do Sinai antes das autoridades do país construírem uma gigantesca cerca para blindar a parte israelense de "infiltrados" - termo pejorativo utilizado para descrever os imigrantes africanos.

Dror Sadot, membro da ONG Hotline para Migrantes e Refugiados, revelou que grande parte dos eritreus e sudaneses residentes em Israel tem o direito de receber asilo, já que fugiu por causa de conflitos armados ou pela perseguição dos regimes ditatoriais de suas nações.

Porém, de acordo com Sadot, "só dez eritreus e um sudanês receberam asilo". Os cálculos da organização indicam que 12 mil eritreus e sudaneses solicitaram refugio a partir de 2013, ano em que, pela primeira vez, Israel permitiu a formalização de pedidos de asilo. No entanto, sete mil deles foram negados, e os restantes aguardam resposta.

"Os eritreus são considerados refugiados no resto do mundo, mas em Israel não", lamentou Sadot. Ele também denunciou que o sistema de solicitação de asilo israelense está em colapso, e por isso muitos africanos não conseguiram realizar os trâmites necessários para pedir este tipo de residência permanente.

O governo de Israel prevê que as pessoas com mais de 60 anos, crianças, pais com filhos pequenos, pessoas com doenças graves ou problemas psicológicos, vítimas de escravidão e os solicitantes de asilo que ainda não receberam resposta para o pedido estão fora do processo de deportação.

Ainda assim, Sadot acredita que "a partir de 1º de fevereiro, quando os imigrantes forem renovar seu visto de permanência, muitos deles serão comunicados que deverão sair de Israel em até 60 dias, caso não queiram ser presos".

Para o porta-voz, que apresentou um recurso ao Supremo Tribunal de Israel para impedir que o país expulse os refugiados africanos que solicitaram asilo e não conseguiram.

"Israel fez pactos confidenciais com Uganda e Ruanda, por exemplo, para deportar as pessoas que aceitem sair do país voluntariamente", afirmou Sadot.

Ele acrescenta que as autoridades dos países africanos negam os acordos.

"Nos últimos anos, milhares de refugiados aceitaram ir para Uganda e Ruanda e, quando chegam, não têm asilo garantido, nem permissão de trabalho, o que faz com que muitos fujam e arrisquem suas vidas no mar Mediterrâneo para chegar à Europa", explicou o porta-voz.

"No fundo, trata-se de uma questão de ódio e racismo", concluiu Sadot.

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