Milhares de migrantes dormem nas ruas de Paris, apesar da promessa de Macron

Rosalía Macías.

Paris, 15 jan (EFE).- O presidente da França, Emmanuel Macron, anunciou em julho do ano passado que, até o final de 2017, "não haveria mais mulheres e homens vivendo na rua". Hoje, há mais pessoas ao relento que antes que o governante se propusesse esse desafio, que, como ele mesmo reconheceu, não foi alcançado.

"Casa? A nossa casa é a rua", brinca, resignado, Ali Hassah, um líbio de 24 anos que encarna, junto com outros milhares de pessoas, a primeira promessa descumprida de Macron.

Hassah, que só fala árabe, considera que, até dominar o idioma francês, será muito difícil para ele encontrar um trabalho e ganhar dinheiro, assim que, por enquanto, faz fila todos os dias para receber o café da manhã distribuído pelas ONGs Utopia56 e Solidarité Migrants Wilson às 10h em um ponto perto da ponte de La Chapelle, no norte de Paris.

Normalmente, reúnem-se neste lugar cerca de 200 imigrantes e refugiados, que recebem comida e roupas para resistir ao frio inclemente de Paris, ainda que seu número dependa de como tenha transcorrido a noite.

Apenas nesta parte ao norte da cidade vivem cerca de 1.500 imigrantes, segundo calculam com seus próprios meios os voluntários da Utopia56, que tentam ajudá-los diante de algumas ações governamentais que consideram não só insuficientes, senão "desumanas".

"Aqui todos os dias são iguais", lamenta Ismail Suleyman, que nunca falta à distribuição de alimentos e que chegou da região de Darfur (Sudão) há um ano e meio, em uma fuga com parada na Líbia e na Itália, que acabou na França, onde sua situação continua sendo "complicada".

Em 2017, mais de 100 mil pessoas pediram asilo na França, segundo anunciou esta semana o Escritório de Proteção de Refugiados e Apátridas (OFPRA, na sigla em francês), o que representa um aumento de 17% em relação ao ano anterior, e 43 mil conseguiram o status de refugiado.

Um deles foi Suleyman, que exibe orgulhoso a permissão de residência de dez anos que lhe permitirá voltar a estudar Veterinária, uma carreira que terminou em 2012 no Sudão, mas que não foi reconhecida na França, e por isso não pode exercê-la.

"As soluções que o Estado tenta não funcionam", insistiu a encarregada de voluntários da Utopia56 - que se identificou como Chrystel -, enquanto o telefone não deixa de tocar em seu escritório, o centro nevrálgico da associação, que funciona também como armazém de centenas de gorros, meias soquetes, cachecóis, mochilas, malas e cobertores.

Os assentamentos precários já são habituais no norte da cidade, mas, segundo Chrystel, a polícia não os respeita.

Para a jovem, a situação é "catastrófica" e deve piorar com a chamada "circular Collomb" - criada pelo ministro do Interior, Gérard Collomb - que permite fazer controles administrativos dentro dos centros de acolhimento de urgência para imigrantes.

Este ponto indigna profundamente as associações, que asseguram que, se o imigrante não se sente seguro nesses centros, deixará de ir para os mesmos e ficará na rua, motivo pelo qual decidiram recorrer contra ela na Justiça.

O Governo francês prepara uma nova lei sobre imigração para acolher "melhor" os solicitantes de asilo e oferecer-lhes uma resposta rápida aos seus pedidos, que permita iniciar o mais rápido possível o processo para a sua integração, segundo o premiê, Édouard Philippe.

O projeto pretende reduzir pela metade o tempo de revisão dos pedidos de asilo, ainda que, como esclareceu Macron, "não se trate de expulsar as pessoas no dia seguinte a um controle, mas lhes diremos mais rápido: 'A senhora não tem nenhuma possibilidade de ter acesso ao status de refugiado'".

O presidente explicará os seus planos na próxima terça-feira em uma visita ao porto de Calais, durante anos o grande símbolo na França dos problemas gerados pela imigração irregular.

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