Presença de bispo de Osorno em missa gera dúvida sobre perdão do papa

Santiago (Chile), 16 jan (EFE).- A presença bispo da diocese chilena de Osorno, Juan Barros Madrid, na missa celebrada pelo papa Francisco nesta terça-feira para 400 mil pessoas em Santiago suscitou polêmica em círculos políticos e religiosos que questionam a sinceridade do perdão oferecido pelo pontífice às vítimas de abusos sexuais.

Nas suas primeiras palavras no Chile hoje, o papa Francisco pediu perdão e disse sentir "dor e vergonha" pelo "dano irreparável causado a crianças por ministros da Igreja".

Poucos dias antes da visita, a polêmica dos casos de pederastia na Igreja católica, que afetam 80 religiosos chilenos, tinha reacendido, e diferentes setores tinham pedido um gesto explícito do pontífice com as vítimas, e até uma audiência privada. Francisco aproveitou o seu primeiro discurso para autoridades no Palácio de la Moneda, sede do Executivo, para se abordar o problema.

"É justo pedir perdão e apoiar com todas as forças às vítimas, ao mesmo tempo em que nos comprometemos em evitar que isso volte a acontecer", disse Francisco, que evitou usar a palavra "abuso".

O perdão do papa gerou uma onda de reações, a maioria positivas, como as do presidente eleito Sebastián Piñera, que qualificou de declarações do pontífice como "corajosas".

"Durante muito tempo foram cometidos muitos abusos, e a Igreja não reagiu com a força que devia. Todos podemos acometer erros, o importante é saber reconhecê-los, se arrepender e acertar o rumo. Esse é a mensagem que o papa nos deixou", disse Piñera, que assumirá a presidência do país pela segunda ocasião em março.

O presidente do Senado, o democrata-cristão Andrés Zaldívar, também apoiou o movimento e declarou que "a Igreja tem que continuar nessa linha de pedir perdão e tomar medidas para acabar com esse tipo de abuso".

Mas houve quem criticasse. Um deles foi o jornalista Juan Carlos Cruz, que há anos denuncia os abusos cometidos em Santiago por Fernando Karadima, atualmente afastado do ofício.

"Chega de perdão. Queremos mais ações. Os bispos que encobrem continuam aí. Palavras vazias. Dor e vergonha é o que as vítimas sentem", declarou Cruz.

Entre os discípulos de Karadima estava Juan Barros, designado em março de 2015 para o cargo de bispo da cidade de Osorno, onde até hoje é rejeitado por uma parte da população, que o acusa de ter escondido os abusos do outrora influente pároco.

Foi exatamente a participação de Barros na missa concelebrada com o papa no Parque O'Higgins que gerou uma nova polêmica nas redes sociais e declarações que questionavam a sinceridade do gesto do pontífice.

A presença do bispo de Osorno, captada durante a transmissão oficial do evento, mudou o foco de atenção da imprensa, que até aquele momento estava concentrada na mensagem do pontífice.

"Barros participa da cerimônia no Parque O'Higgins. Que vergonha! O papa pede desculpas sobre o que? Não acredito em nada. Diz uma coisa e faz outra", escreveu no Twitter Marta Larraechea, mulher do ex-presidente democrata-cristão Eduardo Frei Ruiz-Tagle.

Já o porta-voz do Movimento de Integração e Liberdade Homossexual do Chile (Movilh), questionou a coerência de a pessoa que protege Karadima ser nomeada bispo pelo papa e estar presente na cerimônia.

O bispo Barros disse aos jornalistas que acompanhavam a missa que muitas mentiras são ditas sobre ele.

James Hamilton, outro dos denunciantes, escreveu no Twitter "Barros em glória e altivez: a verdadeira cara do papa", e José Andrés Murillo, outra vítima de Karadima, acrescentou que "com a presença do bispo Barros no Parque O'Higgins, as palavras do papa perdem força e credibilidade".

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