Indígenas brasileiros desafiam a selva para alertar papa sobre suicídios

Odair Leal.

Rio Branco, 17 jan (EFE).- Cerca de cem líderes indígenas brasileiros desafiam há alguns dias os perigos da selva amazônica em uma travessia de milhares de quilômetros para fazer um alerta ao papa Francisco no Peru sobre o aumento no número de suicídios entre os jovens de suas tribos.

O terminal rodoviário de Rio Branco, no Acre, se tornou desde a noite de segunda-feira no epicentro para a chegada de peregrinos dos diferentes estados amazônicos, que a partir desta quarta-feira começaram a se deslocar em caravana até Puerto Maldonado, seu destino final no Peru.

Desde Rio Branco, o principal centro urbano da região, ainda serão quase nove horas de viagem até Puerto Maldonado, passando pelas cidades brasileiras de Brasileia, na fronteira com a Bolívia, e Assis, limítrofe com Iñapari, já em território peruano e a 225 quilômetros de Puerto Maldonado.

A subida de nível do rio Madeira, causada pelas fortes chuvas de janeiro e que ameaçaram deixar o estado do Acre isolado por via terrestre e fluvial, como em 2014, não impediram os peregrinos católicos de se deslocar pelas estradas e rios dos estados de Rondônia e Acre até chegar a Rio Branco.

Entre os peregrinos que começaram a abarrotar o terminal rodoviário de Rio Branco, em sua maioria com cartazes e camisetas alusivas à visita ao Peru do papa Francisco, sobressaem os adornos e utensílios de um grupo de líderes indígenas.

O pontífice, que se encontra no Chile, visitará o Peru entre os dias 18 e 21 de janeiro, passando pelas cidades de Puerto Maldonado, próxima à fronteira com o Brasil e a Bolívia; Trujillo, bastante afetada pelo fenômeno climático do El Niño durante os primeiros meses de 2017, e a capital Lima.

Entres os assuntos que os líderes indígenas brasileiros apresentarão ao papa Francisco chama a atenção o documento que alerta sobre o crescente número de suicídios entre jovens das aldeias das tribos amazônicas.

De acordo com dados do Ministério da Saúde, divulgados em setembro, os indígenas brasileiros são o grupo étnico que mais morre no país por causa de suicídio em comparação com brancos, negros e outras raças.

Por cada 100 mil habitantes indígenas no Brasil, 46 deles morrem em decorrência de suicídios, uma taxa bem superior à média nacional que é de 32 mortes por esse motivo na mesma amostragem de população.

De acordo com o relatório, o maior índice de suicídio entre os indígenas está entre jovens de 10 a 19 anos e o menor ocorre com os adultos entre 60 e 69 anos.

Entre 2015 e 2016, o número de suicídios nas comunidades indígenas do Brasil aumentou 18%, com 106 casos em 2016, de acordo com um relatório apresentado em outubro pelo católico Conselho Indigenista Missionário (Cimi).

Outro dado que preocupa a população indígena é o aumento em 18,5% da mortalidade infantil entre crianças de até cinco anos de idade no mesmo comparativo, com um total de 735 menores mortos em 2016.

Em Puerto Maldonado, o papa se reunirá em 19 de janeiro com 3,5 mil representantes de comunidades indígenas peruanas, bolivianas e brasileiras, quemexporão os perigos que enfrentam relacionados com a mineração ilegal, o desflorestamento, a disputa violenta por terras e a mudança climática, entre outras ameaças.

No almoço com Francisco e os líderes indígenas, a comitiva brasileira entregará o documento sobre as estatísticas do suicídio em suas aldeias, segundo comentou à imprensa Rosenilda Nunes, da equipe coordenadora da Diocese de Rio Branco.

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