EUA também vivem realidade de mulheres sem representação e desvalorizadas

Raquel Godos.

Washington, 19 jan (EFE).- No país com a maior economia do mundo, os Estados Unidos, as mulheres também vivem um panorama de desvalorização no mercado de trabalho, ganhando em média 83% do salário dos homens pela mesma função, e no Congresso contam com apenas 20% de representatividade.

A igualdade entre os gêneros está longe de ser atingida no país, embora a vitória de Donald Trump sobre Hillary Clinton na disputa pela presidência, em 2016, tenha significado um antes e um depois na reivindicação das mulheres.

"Um problema fundamental é que a mulher não se via em posições de poder. O emocionante é que agora isso mudou. Antes de Trump, quase tínhamos que implorar para que as mulheres concorressem a cargos políticos. Neste ano recebemos 26 mil pedidos", afirmou à Agência Efe Vanesa Cárdenas, porta-voz da ONG Emily's List, voltada ao empoderamento político de mulheres progressistas.

"Para as mulheres foi um choque que Hillary, totalmente preparada e com experiência mais do que suficiente, tenha perdido para um homem como Trump", disse Cárdenas, ressaltando que o resultado nas urnas gerou um "despertar" entre as americanas.

Nos Estados Unidos, as mulheres teriam que trabalhar 44 dias a mais do que os homens por ano para obter o mesmo salário, com o mesmo preparo e o mesmo tipo de trabalho, segundo um estudo recente do Centro de Pesquisas Pew.

Além disso, das 100 cadeiras do Senado, apenas 22 são ocupadas por mulheres. Já entre os 435 parlamentares da Câmara dos Representantes, apenas 84 são mulheres.

Cárdenas destacou que é justamente esta pouca representação política que faz com que os EUA não avancem em políticas de igualdade, como uma lei promovida em várias ocasiões pelos democratas para obrigar empresas a promover igualdade salarial, um projeto que sempre foi travado no Congresso.

"Quando há mais mulheres na mesa, as pautas que as envolvem são mais debatidas, como a saúde reprodutiva e o cuidado infantil", lembrou.

Kate Bahn, economista do centro de estudos Center for American Progress, disse à Efe que a segregação ocupacional é um dos aspectos que mais contribuem para a disparidade salarial de gênero.

"A segregação ocupacional é notavelmente constante no mundo todo, mas a forma como avaliamos os trabalhos associados com as mulheres pode ser abordada através de mudanças políticas e culturais", frisou.

A especialista em economia de gênero apresentou um dado inclusive mais preocupante. "Como as mulheres em média têm níveis de educação mais altos do que os homens nos EUA, a educação na realidade tem um efeito negativo na brecha salarial de gênero: as mulheres mais educadas enfrentam uma diferença salarial de gênero mais alta".

Por outro lado, é fundamental o marco legal quanto à maternidade, e segundo Bahn a estagnação da desigualdade salarial também está na ausência de uma legislação que ampare as pessoas - em sua maioria mulheres - que se dedicam a cuidar de outros, sejam bebês ou pessoas idosas.

Neste sentido, os dados são muito desanimadores, já que são mais frágeis para as mulheres quando são mães, porque segundo a lei atual, de 1993, elas têm direito a 12 semanas de licença, mas sem receber benefício monetário, a não ser que negociem com os patrões. Este é um dos níveis mais baixos de ajuda entre os países industrializados para a licença-maternidade.

A impossibilidade de conciliar a chegada de um recém-nascido com as despesas familiares derivadas de um nascimento faz com que nos EUA as mulheres saiam mais facilmente da força de trabalho, influenciando também em suas capacidades de ascensão profissional.

No entanto, o ressurgimento de movimentos feministas como #MeToo, contra o assédio sexual, e o aumento do debate social sobre o papel da mulher estão protagonizando cada vez mais a agenda política, abrindo a porta para uma possível mudança de era.

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