Pequim ganha "bairros fantasmas" após despejos em massa

Jèssica Martorell.

Pequim, 25 jan (EFE).- Vários bairros da região de Pequim ficaram com ruas desertas, além de escolas, lojas e bares com as portas fechadas, após autoridades chinesas promoverem o despejo de milhares de pessoas - muitas delas imigrantes ilegais - e reduzirem a pó diversas construções alegando descumprimento da lei.

A vida em Daxing, no sul da capital, mudou drasticamente nos últimos meses, tornando-se uma espécie de "bairro fantasma". O cenário é de entulho empilhado, poeira e restos de demolição.

"O governo botou todo mundo na rua. Não podemos manter nosso comércio", afirmou "Zhang", que não quis revelar seu nome verdadeiro e, aos 65 anos, fechou a única fonte de renda que tinha, uma barbearia.

Há um mês, contou ele à Agência Efe, todos os estabelecimentos foram obrigados a fechar.

"Não são ilegais. Temos permissão de funcionamento. Estou aqui desde 1985", argumentou.

Depois de ser forçado a baixar as portas, agora ele vive como pode, e as diferenças já são sentidas. Neste inverno, por exemplo, sua casa está sem calefação.

Tudo começou em 18 de novembro do ano passado, quando um incêndio em um prédio residencial do bairro matou 19 pessoas, sendo oito crianças. As chamas foram provocadas por uma pane no circuito elétrico, e as autoridades fizeram então uma campanha para melhorar a segurança dos imóveis da cidade e das redondezas, que acabou levando ao despejo em massa.

Apesar de o prédio em questão continuar de pé, grande parte dos outros foi derrubada por escavadeiras.

"Aqui havia uma fábrica de roupas, mas foi demolida em dezembro. Todas as pessoas que moravam lá (a empresa tinha quartos para os funcionários no local) tiveram que ir", disse Wang, outro morador que quis preservar seu nome.

Segundo ele, as famílias afetadas se mudaram para outras regiões de Pequim, mas os migrantes tiveram que voltar às suas províncias de origem.

Este êxodo pode explicar o fato de a população de Pequim ter diminuído em 22 mil habitantes no ano passado e chegar ao patamar de 21,7 milhões. Foi a primeira queda registrada em 17 anos, segundo dados oficiais divulgados recentemente. Apesar de não ser revelado o número de imigrantes que atualmente vive na capital, para as autoridades essa queda se deve ao fato de megacidades, como Pequim, serem cada vez "menos atrativas" para eles.

No entanto, muita gente acredita que a chegada de trabalhadores de outras províncias chinesas desacelerou porque eles não são bem vistos na capital. Mesmo tendo sido fundamentais para o crescimento da cidade e fazerem o trabalho mais braçal e pior remunerado, a China quer limitar a população de Pequim em 23 milhões a partir de 2020, com o objetivo de reduzir a superpopulação e, consequentemente, a poluição do ar.

De fato, o governo planeja criar uma nova zona econômica, Xiongan, 130 quilômetros ao sul de Pequim, para dar fôlego à capital.

O controle sobre os migrantes já aumentou, e agentes governamentais inspecionam imóveis da capital para verificar se alguém sem registro oficial vive ali. Uma moradora, que preferiu manter o anonimato, disse à Efe que há alguns dias agentes foram em sua casa e, ao ver que um parente de outra província lá, pediram diversas informações sobre a estadia dele em Pequim.

O caso de Daxing não é exceção e se repete em outros subúrbios da capital como Changping, ao norte de Pequim, onde muitas pessoas foram vítimas dos desalojamentos. Segundo Wang, o governo ofereceu o equivalente a R$ 50 mil para cada família como compensação, mas nem todos aceitaram.

"Alguns não concordaram e protestaram. Nove pessoas acabaram sendo presas", contou.

Apesar de não ter sido diretamente afetado pelas demolições, agora ele tem que percorrer dez quilômetros para chegar ao supermercado e para deixar o filho na escola.

Os moradores que insistem em continuar nos "bairros fantasma" tentam tocar suas vidas como podem e esperam que a situação melhore, já que, segundo disseram, novos edifícios serão erguidos nos espaços onde hoje só há montanhas de entulho.

"O Partido Comunista é irracional", lamentou Zhang, que agora vive sem trabalho, sem calefação e sem roupas adequadas para suportar a temperatura de 14 graus abaixo de zero que nesses dias estão sendo registradas na capital chinesa.

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