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China fecha ainda mais o cerco contra religiões

02/02/2018 10h01

Jèssica Martorell.

Pequim, 2 fev (EFE).- Muitos católicos desafiam o governo da China ao frequentarem igrejas "clandestinas", apoiadas pelo Vaticano, mas perseguidas pelas autoridades do país, que também repreende muçulmanos. Agora, o regime comunista fechou o cerco sobre as religiões com uma norma ainda mais rígida.

Em janeiro, entrou em vigor uma versão revisada do Regulamento de Assuntos Religiosos que endurece o controle das autoridades sobre as atividades religiosas e estabelece multas e novas responsabilidades legais.

A repressão não é inédita. Nos últimos meses, a China derrubou várias igrejas - alegando serem ilegais -, confiscou cruzes e obrigou a substituição de imagens de Jesus Cristo por retratos do presidente Xi Jinping.

Os integrantes da etnia uigur também foram afetados. O uso de véu ou da barba foi igualmente suspenso para quem pertence a esse grupo praticante do Islã. As crianças também foram proibidas de praticar atividades religiosas durante as férias.

Ainda que na teoria exista liberdade de culto na China, na prática isso é bem diferente.

"Isso não pode ser chamado de liberdade religiosa, mas de perseguição religiosa disfarçada de liberdade. O que a China quer é se certificar de que o que é dito dentro desses espaços está em concordância com o que o Partido Comunista quer que as pessoas acreditem", afirmou Brynne Lawrence, da China Aid, organização nos Estados Unidos com ampla rede de ativistas e cristãos chineses.

Existem cerca de 10 milhões de católicos na China de 1,37 bilhão de habitantes, mas eles são divididos entre os que seguem a Igreja oficial - com bispos indicados pelo governo - e os que seguem o papa, praticam a religião em igrejas não oficiais e são perseguidos pelo regime comunista.

A nova regra mantém a proibição de exercer a profissão daqueles que não têm a permissão do governo e enfatiza que grupos não autorizados não poderão receber doações ou divulgar informações religiosas na internet, por exemplo. Quem descumprir a lei sofrerá sanções mais duras do que as atuais, como multas de 100 mil a 300 mil iuanes (R$ 50.400 e R$ 151.200).

Apesar de, por enquanto, o texto só especificar punições em dinheiro, todos sabem que também existe o risco de prisão.

"Os novos regulamentos dão aos funcionários mais poder sobre os religiosos da China, e é provável que usem isso", advertiu Lawrence, que teme que a repressão aumente.

Conforme relatos, as missas costumam acontecer dentro de casa, mas mudam de lugar para evitar que os fiéis sejam descobertos pelas autoridades. Mas o endurecimento da lei não surpreendeu os padres não reconhecidos por Pequim, como é o caso de Xiao (nome fictício), que já foi detido por fazer parte do grupo de católicos clandestinos.

"Sempre nos obrigaram a fazer o registro. Esta lei não é nova. Eles já pediram isso antes, e nós não fizemos", explicou o religioso, que garantiu que continuará celebrando missas.

A expectativa é de que a batalha entre China e Vaticano termine em breve, já que nos últimos meses aconteceu uma aproximação entre as partes. É fato que nem só os católicos são alvo do regime comunista. Os muçulmanos também sofreram recentemente com restrições das autoridades, com o pretexto de "frear o extremismo religioso".

As autoridades também impuseram novos controles ao Larung Gar, a maior academia independente de budismo no Tibete, de acordo com a Human Rights Watch. A partir de agora, o mosteiro ensinará "a honrar e apoiar o PCCh e o sistema socialista", e os monges serão treinados para "defender a unificação da pátria e manter a união nacional".

"A liberdade de religião ou crença não existe na China, apesar de a Constituição garanti-la", concluiu Lawrence.