Ossos que voltam dançando à vida, o ritual de exumação de Madagascar

Andry Tsileferintosa.

Antananarivo, 19 fev (EFE).- O sol desperta em Anosisoa, no sul da capital de Madagascar, dando passagem à cerimônia da "volta dos ossos", um ritual no qual são exumados os restos dos entes queridos mortos há anos e devolvidos à vida com uma celebração cheia de danças e cantos.

Música, festa e alegria. Os aldeões já estão preparados par andar pelo caminho que conduz ao túmulo ancestral dos Ramanantsoa, uma família natural de Antananarivo. Hoje é o dia da exumação e é uma jornada de júbilo.

Ao ritmo de um canto que soa popular e pegajoso, parentes e amigos se perdem nas danças que lideram um procissão com os restos dos Ramanantsoa, portados pela sua família.

"Neste ano decidimos trazer de volta os ossos dos entes queridos que nos deixaram. No nosso caso trata-se do meu pai, da minha mãe e do meu irmão. (O último) era o pilar da família. Foi a ele a quem os irmãos se dirigiam em momentos difíceis e sempre esteve disposto a dar uma mão", explicou à Agência Efe Gilbert Ramanantsoa, mestre da cerimônia.

O irmão dos Ramanantsoa foi assassinado em sua casa após o ataque de uma bando há cinco anos, explicou Gilbert Ramanantsoa, diretor de uma pequena empresa de construção.

Há 20 minutos que a música e as danças são os protagonistas, e agora todos ficam na frente do túmulo. Um por um, desembrulham os restos exumados, envolvidos em esteiras, e então a família se apressa a pegá-los para realizar a "famonosana".

A "famonosama" é uma cerimônia que consiste em envolver com delicadeza os restos dos mortos em seda, para mais tarde, voltar a enterrá-los. Enquanto isso, a música, a dança e o álcool continuam.

Alguns presentes não conseguem conter a emoção e derramam lágrimas, mas os idosos da família estão ali para pôr ordem: "nada de prantos e nem lágrimas. Hoje é um dia de celebração e não de tristeza", reprovam.

À família não é dado os pêsames, ao contrário, ela é parabenizada. Os convidados abraçam um por um dos familiares dos exumados e dão um objeto que simboliza a comunhão.

Agora é hora do "vary be menaka", um prato malgaxe de arroz e carne cozida que todos comerão como símbolo de fraternidade.

Mais tranquilos, a família e os amigos passam para o etapa final: devolver os restos envolvidos ao túmulo.

Os presentes dão sete voltas no túmulo antes de entrar e depositar os ossos, e o mestre de cerimônias pronuncia um discurso no qual agradece aos convidados por terem compartilhado o dia antes de enterrar os restos mortais novamente.

Esta exumação é típica dos malgaxes das montanhas, um costume relacionado com a espiritualidade de venerar os antepassados.

"Eles os consideram, de alguma maneira, como uma conexão entre os vivos e Deus. Com a exumação, os malgaxes acreditam que seus antepassados os abençoam" , explicou à Efe a socióloga Josiane Aurore Razanadrazaka.

"Além deste aspecto espiritual, também está o social e econômico. Se fortalece o vínculo entre os membros da família, e os desta com a sociedade", explicou Razanadrazaka.

Além disso, como em todas as festividades, a tradição contribui para o aspecto econômico, já que vestem roupa nova, dão comida e bebida aos convidados e são contratados músicos, destacou a socióloga.

"A exumação ainda tem um futuro brilhante pela frente", assegurou Razanadrazaka, apesar de o roubo de ossos e pragas como a peste bubônica do ano passado, que deixou mais de 200 mortos, fizeram com que as autoridades planejem proibir o ritual.

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