Mundo está cego e surdo perante as tragédias humanas, diz chefe de órgão da ONU

Kathy Seleme

Em Beirute

O comissário do Acnur (Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados), FilippoGrandi, afirmou nesta sexta-feira (9) à Agência Efe que o mundo "está ficando cego e surdo perante as tragédias humanas", como a que está ocorrendo em Ghouta Oriental, o principal reduto dos rebeldes nos arredores de Damasco, na Síria.

Grandi, que terminou hoje uma visita de três dias ao Líbano, insistiu que Ghouta [onde as forças do governo estão imersas numa ofensiva] é "símbolo do fracasso da solução militar" e enfatizou que "as organizações humanitárias estão fazendo o máximo para pôr fim à colossal tragédia humana que ocorre na Síria".

"Mas hoje o mundo está ficando cego e surdo perante as tragédias humanas. Antes, as coisas mudavam quando as pessoas viam imagens de gente morta e de destruições, mas atualmente se tornou uma rotina. Ou seja, a lógica militar prevalece sobre a lógica política."

Apesar da insensibilidade mostrada pela comunidade internacional, o responsável do Acnur insistiu que continuarão "contando ao mundo as consequências do medo, do terror, do sofrimento e da fome que a guerra provoca".

"Conheci o país antes (da guerra) e parte o coração ver como agora está. As pessoas estão comendo mato. Eu vi em Yarmouk, Homs, Aleppo e agora em Ghouta" declarou.

Prestes a completar sete anos de guerra civil, Grandi disse que a situação política é mais complicada, atualmente, "pelo número dos atores que intervêm no conflito". 

Ghouta Media Center via AP
Imagem de pai se despedindo de filho morto vira retrato dos bombardeios do governo sírio em Ghouta


Desde 25 de fevereiro, Ghouta Oriental é palco de uma ofensiva terrestre do Exército sírio e dos seus aliados, que foi precedida de um aumento dos bombardeios feitos pelas aviações síria e russa, e de disparos de artilharia realizados por forças governamentais. Todas essas ações já cobraram a vida de quase 1.000 civis, conforme o Observatório Sírio de Direitos Humanos.

"Tudo o que vimos nestes últimos meses mostra como a complexidade deste conflito faz com que a sua solução seja mais difícil. Da nossa parte, continuaremos ajudando os civis", concluiu.

Em comunicado divulgado hoje, o Acnur apontou que nestes sete anos de disputa, centenas de milhares de pessoas perderam a vida, enquanto 6,1 milhões se deslocaram dentro da Síria e 5,6 milhões buscaram refúgio em outros países. A agência da ONU considerou que as condições enfrentadas pelos os civis que permanecem no território sírio são "as piores do que nunca", já que 69% enfraquece pela pela pobreza extrema.

Ao todo, 90% das famílias gastam mais da metade da renda que têm no ano em comida num país onde os preços dos alimentos é oito vezes maior do que antes da guerra. Além disso, 5,6 milhões de pessoas vivem em condições que representam uma ameaça para as suas vidas em termos de segurança e direitos básicos ou padrões de vida, e precisam de assistência humanitária de forma urgente, segundo o texto.

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