Centenas de moradores de Gaza mantêm protesto na fronteira com Israel

Saud Abu Ramadan.

Gaza, 2 abr (EFE).- Centenas de moradores de Gaza continuam acampados nas tendas instaladas para a Grande Marcha do Retorno, a 700 metros da fronteira com Israel, depois que na sexta-feira passada morreram 18 pessoas e outras 800 foram feridas por tiro e colapsam nesta segunda-feira os hospitais da Faixa.

No Al Shifa, o maior hospital de Gaza, o porta-voz do Ministério da Saúde, Ashraf al Qedra, informou do estado dos vários feridos, incluindo os 1.400 que foram tratados por sintomas de asfixia por causa do gás lacrimogêneo e os 805 feridos de bala durante os protestos de sexta-feira e sábado.

Esse é o saldo até agora da chamada Grande Marcha do Retorno, uma campanha lançada em Gaza por todas as facções, lideradas pelo islamita Hamas, que reivindica o direito ao regresso dos refugiados palestinos e deve continuar com esse acampamento até 15 de maio, quando pedem que milhares de pessoas caminhem para as fronteiras com Israel.

Apesar dos pedidos para se manter o caráter pacífico da iniciativa, grupos de palestinos enfrentaram com pedras e coquetéis molotov as forças israelenses postadas na cerca fronteiriça, que responderam com fogo e outros meios de dispersão de massas.

O número de mortos inclui os 16 confirmados pelo Ministério da Saúde palestino, enquanto outros dois corpos estão em poder de Israel.

"Matar um agricultor na sexta-feira cedo pela manhã e ferir outros 150 palestinos antes que os protestos e concentrações começassem são um sinal claro de que o lado israelense tinha intenções prévias de atacar civis que não estavam armados", disse hoje Al Qedra.

Entre os muitos feridos está Osama, um jovem de 19 anos internado no Al Shifa que disse à Agência Efe que tem um osso do tornozelo fraturado por um disparo das forças israelenses e agora necessitará de repouso durante 40 dias, depois de ter passado por duas operações.

"Estava com centenas de jovens e adolescentes e todos nos manifestávamos, levávamos bandeiras e queimávamos pneus. E, de repente, senti algo batendo na minha perna e caí no chão", lembrou.

A tensão na região fronteiriça diminuiu nos últimos dois dias, nos quais o Ministério da Saúde contabilizou 12 feridos por disparos, e a calma é relativa nos seis pontos do norte, sul e leste do enclave litorâneo sob bloqueio israelense onde foram instaladas cerca de 70 grandes tendas de campanha, em sua maioria sobre terrenos de cultivo de trigo e cevada.

Ao leste da cidade de Gaza, há menos gente que no primeiro dia da Grande Marcha e se vê famílias e jovens em um ambiente quase festivo jogando futebol, dançando, cantando ou jogando xadrez.

Durante a noite, as mulheres, os idosos e as crianças voltam para casa e os mais jovens ficam assando verduras em improvisadas fogueiras perto das tendas, onde sobre o solo arenoso abundam colchões e cebolas - usadas para combater o gás lacrimogêneo lançado pelas forças israelenses para dissolver os protestos -, além de água.

"Estamos tentando por todos os meios continuar com a marcha até que alcance seu objetivo, que é mandar uma mensagem pacífica ao mundo de que os palestinos em Gaza pedem que termine seu sofrimento sem fim", declarou à Efe Ahmad Abu Rtiema, porta-voz da organização.

Nesse sentido, insistiu que as atividades devem ser pacíficas e argumentou que no primeiro dia, quando houve "um grande número de vítimas", os participantes estavam muito exaltados.

"Hoje manejamos a situação e fizemos todo o possível para manter os concentrados longe da cerca", comentou após um dia no qual vários artistas desenharam e escreveram em árabe os nomes das cidades, agora em Israel, das quais procediam palestinos que fugiram ou foram expulsos durante a guerra na qual derivou o estabelecimento desse Estado em 1948.

Se o protesto se tornar violento, como temem alguns analistas depois do elevado número de vítimas registrado até agora, "isso daria a Israel a desculpa para seguir abrindo fogo e matando mais gente e diria ao mundo que nos escuta que a nossa luta é de terror e violenta", argumentou Ahmad Bayruti, outro dos organizadores.

Hussam Abu Daf, um morador de Gaza que permanece em uma tenda, ressalta que é do interesse de todos "continuar com o acampamento até a Grande Marcha do dia 15, razão pela qual queremos que a manifestação não perca sua imagem".

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