Homem reencontra a mãe biológica 40 anos depois da guerra do Vietnã

Eric San Juan.

Quy Nhon (Vietnã), 4 mar (EFE).- Mais de quatro décadas depois de ser evacuado da guerra do Vietnã para a Irlanda do Norte ainda bebê, Vance McElhinney retornou ao seu país de origem e reencontrou sua mãe biológica, com quem decidiu viver parte do ano.

"Sempre tinha a pergunta rondando na minha cabeça, quem são os meus pais biológicos? Mas apenas há três anos me atrevi a dar o passo e viajar para o Vietnã", disse McElhinney à Agência Efe em uma cafeteria de Quy Nhon, cidade litorânea do centro do Vietnã onde está temporariamente instalado desde janeiro.

Nascido em julho de 1974, McElhinney foi um dos 99 bebês evacuados ao Reino Unido em abril de 1975 dentro da chamada operação "Baby Lift", que levou outras 3.000 crianças vietnamitas, em sua maioria órfãos, aos Estados Unidos e à Europa.

"Minha mãe biológica estava ferida por um tiro, tiveram que fazer transfusões de sangue e meus tios tiveram que cuidar de mim. Eles foram aconselhados a me enviar a um orfanato católico em Saigon (atual Ho Chi Minh) para ter mais segurança e dali fui enviado semanas depois ao Reino Unido sem que a minha mãe soubesse. Ela diz que esteve esperando que voltasse desde então", contou.

Adotado pelos McElhinney, uma família protestante dos arredores de Belfast, diz ter vivido uma infância "razoavelmente feliz" apesar dos insultos que recebia por seus traços asiáticos e de viver anos difíceis pelo conflito do Ulster.

Também recorda como quando criança era entrevistado de vez em quando por jornais e televisões, algo que acabou sendo útil há dois anos, quando iniciou sua busca e a emissora "BBC" se ofereceu para apoiar-lhe e gravar um documentário.

"Isso me permitiu contar com sua equipe de investigação, o que me ajudou a encontrar o orfanato onde tinha estado e agradecer a quem cuidou de mim, mas não achamos ninguém da minha família", relatou.

No entanto, meses depois, com a publicação da história na imprensa vietnamita, começou a receber mensagens de pessoas que diziam ser seus familiares.

"Foram 30 mensagens quando eu estava em Belfast, mas uma me chamou a atenção: uma moça dizia que sua tia estava convencida de que eu era seu filho perdido e que precisava me ver o mais rápido possível", lembrou.

Quando voltou ao Vietnã, se encontrou com a mulher, que começou a chorar assim que o viu.

"Era uma situação estranha, eu estava muito cético e ela insistia, através da intérprete, para que eu ficasse na sua casa, para que passássemos tempo juntos, que era seu filho", afirmou.

McElhinney enviou a uma empresa do Canadá amostras dos seus cabelos e dos da mulher e semanas depois lhe informaram que essa mulher, chamada Le Thi Anh, era sua mãe.

"Quando me disseram eu não estava preparado, não pensava que esse momento fosse chegar, embora ela estivesse convencida. Foi uma mistura de sentimentos, por um lado alegria, mas também responsabilidade de saber que tenho uma mãe no Vietnã, uma viúva que vive na pobreza com uma pensão de US$ 20 ao mês, e que sou seu único filho", explicou.

McElhinney não retornou de imediato ao Vietnã. Acompanhou sua mãe adotiva doente nos seus últimos meses de vida e viajou depois da morte dela em dezembro do ano passado.

Embora outros evacuados do "Baby Lift" tenham retornado ao seu país de origem nos últimos anos para reencontrar-se com suas raízes e em alguns casos encontraram seus pais e familiares, McElhinney foi além ao decidir instalar-se no Vietnã parte do ano e cuidar da sua mãe.

Em Quy Nhon não se chama Vance, mas Chau, o nome que teve durante seus primeiros meses de vida e como todos lhe chamam no centro de ajuda a jovens incapacitados com o qual se envolveu, na casa dos seus tios onde vive com sua mãe e no seu círculo de amizades, limitado pelo idioma.

"As pessoas acham que vivo um conto de fadas, mas a situação não é fácil. Sinto que tenho uma responsabilidade com minha mãe, mas mal podemos nos comunicar, ela não fala inglês e eu não falo vietnamita. Gosto do Vietnã, sinto uma conexão especial com o país, mas às vezes me sinto muito isolado aqui", confessou McElhinney.

Durante suas viagens conheceu uma mulher vietnamita com quem planeja se casar no próximo mês de dezembro e viver com ela oito meses ao ano no Reino Unido, onde sempre ganhou a vida como cozinheiro, e quatro no Vietnã, com a esperança de estreitar os vínculos com a família.

"Ela é muito afetuosa, quer que passe tempo com ela, que lhe agarre a mão quando estamos juntos, mas eu sempre fui muito independente e me custa sentir próximo a ela. Estive no seu ventre durante nove meses, mas cresci muito longe", considerou.

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