Lula, a queda do presidente operário

Mar Marín.

Rio de Janeiro, 5 abr (EFE).- "Quero que devolvam a minha inocência", exigia há poucos dias, Luiz Inácio Lula da Silva, o presidente mais carismático do Brasil, a quem nesta quinta-feira, o Supremo Tribunal Federal (STF) deixou próximo da prisão, em uma decisão sem precedentes na história do país.

Lula, o líder pragmático do Partido dos Trabalhadores (PT) e favorito nas pesquisas para as eleições presidenciais do mês de outubro, pode ser preso nos próximos dias por corrupção e lavagem de dinheiro.

A Justiça o acusa de receber benefícios que se teriam materializado em um apartamento triplex no Guarujá, em São Paulo, em troca de favorecer a uma construtora com contratos públicos durante sua gestão.

"Eu não estou acima da lei. Quero ser tratado como qualquer cidadão. Quero que eles parem de mentir. Quero ser julgado com base no mérito. Se encontrarem uma prova, eu me calo", disse última segunda-feira, diante de milhares de militantes no Rio de Janeiro.

O caso do apartamento é um dos sete processos por corrupção que o ex-presidente enfrenta, que dizia manter "a tranquilidade dos justos e inocentes", enquanto a Justiça o encurralava.

A corrupção, chegou a dizer durante seu mandato, "está em todos os setores da sociedade", incluindo na "política e poder judiciário", mas se declarava imune a ela.

Apesar de seus comentários, a sombra do crime o perseguiu durante seu mandato - com famosos escândalos como o "mensalão" pelo pagamento de propinas em troca de apoios parlamentares - e manchou os últimos anos de seu governo.

Suas habilidades de negociação o ajudaram a evitar as acusações, que sempre atribuiu à revanche da direita pelas suas políticas sociais.

Uma mensagem que repetiu até cansar nas caravanas que liderou por todo o país para promover sua candidatura nos últimos meses, mesmo sabendo que a lei da "ficha limpa", que ele mesmo aprovou, o impede de concorrer à presidência, com a condenação em segunda instância por conta do caso do triplex.

Lutador obstinado, Lula, "o filho do Brasil", como foi batizado em um filme biográfico, ganhou muitas batalhas em sua vida - incluindo a da marginalização em um país com uma profunda divisão social e a guerra contra o câncer de laringe, logo após deixar o poder -, mas esta vez perdeu o pulso.

Nascido em 1945 em Pernambuco, no empobrecido nordeste brasileiro, emigrou com a sua mãe e os sete irmãos para São Paulo em busca de seu pai, um agricultor analfabeto e alcoólatra que teve 22 filhos com duas mulheres e a quem Lula conheceu quando tinha 5 anos.

Aprendeu a sobreviver na rua, como vendedor e engraxate, e aos 15 anos, tornou-se torneiro mecânico e se aproximou ao movimento operário.

Lula chegou a presidir o poderoso sindicato metalúrgico e entrou na política no final da década de 1970, no auge da ditadura, dilacerado pela morte de sua primeira esposa, Maria de Lourdes, por falta de assistência médica durante a gravidez.

Ele se uniu a políticos de esquerda para fundar o PT e lançou uma carreira meteórica antes de sonhar com a Presidência.

Então, ele somente conseguiu chegar ao Palácio do Planalto em 2002, em sua quarta tentativa (1990, 1994, 1998). Até então, pouco restava do barbudo sindicalista que discursava para as multidões. Mais conciliador e moderado, o "Lulinha" presidente se deixava vestir por costureiros internacionais e aparecia com personagens de vanguarda.

Em oito anos de gestão, tirou da pobreza 28 milhões de pessoas e liderou uma "revolução" pacífica que colocou o Brasil entre os protagonistas da agenda mundial.

Mas a lua de mel começou a estremecer em 2005, com os primeiros escândalos de corrupção do Partido dos Trabalhadores.

"Ninguém tem mais autoridade moral e ética do que eu para transformar a luta contra a corrupção não em bandeira, mas em uma prática cotidiana", afirmou em 2005, após o "mensalão".

Buscando alianças para a reeleição e, com uma popularidade do 87% ao final da sua gestão, elegeu Dilma Rousseff para continuar seu projeto.

Seu plano, no entanto, veio abaixo por uma "tempestade perfeita" que combinou uma profunda crise econômica com a baixa popularidade de Dilma e um pacto dos seus antigos aliados para acabar com a "era PT", em agosto de 2016.

O golpe acelerou a queda de Lula, cercado pela Justiça em um pacto "quase diabólico" - segundo palavras do ex-presidente - para evitar seu retorno ao poder.

"Tenho uma história pública conhecida. Acho que só ganha de mim, aqui no Brasil, Jesus Cristo", chegou a dizer em sua defesa, enquanto um procurador o descreveu como "o comandante" da maior trama de corrupção do país.

Hoje, aos seus 72 anos, debilitado após a morte da sua segunda esposa, Marisa Letícia, Lula tem pouco que ver com "o líder mais influente do mundo" que ocupou a capa da revista "Time".

O homem mais amado - e odiado - do Brasil, o torneiro que inspirou milhões com a ilusão de uma vida melhor, se despedia esta semana de seus partidários: "Eles não vão prender meus pensamentos, não vão prender meus sonhos. Se não me deixarem andar, vou andar pelas pernas de vocês. Se não me deixarem falar, falarei pela boca de vocês".

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