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Palco da última luta de Martin Luther King, Memphis ainda sofre com a pobreza

05/04/2018 16h46

Memphis (EUA), 5 abr (EFE).- Memphis, a cidade onde há 50 anos foi assassinado Martin Luther King Jr., parece congelada no tempo: ruas vazias, edifícios mal preservados e uma média salarial que para os negros continua como era meio século atrás, 50% abaixo do que os brancos recebem.

Em março de 1968, o pastor protestante e ativista viajou a Memphis para se solidarizar com a greve dos lixeiros, que lutavam por um salário digno, uma iniciativa que mais tarde se tornaria seu novo campo de batalha, a campanha contra a pobreza.

O tratamento desigual aos trabalhadores negros em comparação com os brancos, os baixos salários e a falta de benefícios eram partes fundamentais dos problemas de justiça e econômicos que os Estados Unidos viviam há meio século.

No entanto, cinco décadas depois, no aniversário de sua morte, a cidade onde o Nobel da Paz de 1964 protagonizou sua última luta antes de ser assassinado não obteve o progresso pelo qual Martin Luther King Jr. deu a vida.

Apesar do aumento nos índices de negros empregados em trabalhos qualificados, a renda média dessa parte da população ainda é 50% mais baixa que a dos brancos no condado de Shelby, ao qual pertence a cidade, segundo um relatório divulgado pelo Museu Nacional de Direitos Civis (NCRM) e pela Universidade de Memphis.

Em 2016, cerca de 8% da população branca da região vivia em condições de pobreza, enquanto a porcentagem entre os negros era de 29%.

O estudo indica como a pobreza entre os cidadãos negros no condado diminuiu depois do movimento de direitos civis impulsionado por King. No entanto, com a chegada do novo milênio, o número de negros abaixo da linha da pobreza voltou a aumentar.

"A pobreza nos EUA segue diminuindo, mas está aumentando em toda a área de Memphis. A cidade alcançou a infeliz primeira posição como a mais pobre de todo o país e a com maior pobreza infantil", explicou Elena Delavega, principal autora do estudo.

No início do século, cerca de 35% das crianças negras da região viviam na pobreza, mas, desde então, segundo os dados do relatório, o índice foi aumentando paulatinamente até beirar 50%, enquanto a pobreza infantil entre os brancos é quatro vezes menor, com apenas 11%.

"Não podemos excluir a metade de nós e esperar que a nossa comunidade esteja bem, porque não está. Portanto há muito trabalho a fazer", acrescentou Delavega durante a apresentação do relatório.

Outro dado preocupante mostrado pelas estatísticas é o do desemprego, e a surpreendente constatação que após a aprovação da Lei de Direitos Civis em 1964, o desemprego entre os negros no condado de Shelby, longe de diminuir, aumentou.

"É difícil explicar por que isto é assim, já que o desempenho educacional aumentou no mesmo período. Mas é possível que a alta taxa de desemprego para os negros esteja associada com a guerra contra as drogas na qual os negros foram desproporcionadamente alvo de detenções", aponta o estudo.

A taxa de encarceramento para os negros aumentou 50% desde 1980, enquanto a dos brancos diminuiu levemente, por isso "não há dúvida" que este fenômeno teve um impacto crucial na incidência do desemprego entre os negros.

Kenneth Robinson, presidente e diretor-executivo da organização United Way of the Mid-South, dedicada a combater a pobreza na região, foi contundente durante a apresentação do relatório: "É a história de uma cidade estancada".