Antiga fazenda do tráfico recebe casas para vítimas do conflito colombiano

Mar Romero Sala.

Florencia (Colômbia), 6 abr (EFE).- Sobre as terras que pertenceram ao traficante de drogas colombiano Leonidas Vargas, que foi assassinado em 2009 na Espanha, hoje são construídas casas de proteção social onde vítimas do conflito armado procuram refazer suas vidas.

A casa e os cerca de 100 hectares nos arredores de Florencia, capital do departamento de Caquetá, na Amazônia colombiana, pertenciam à fazenda chamada "El Puerto", que em 2004 passou para as mãos do Estado colombiano.

Lá foram construídos vários edifícios de apartamentos e fileiras de casas destinadas às vítimas do conflito armado colombiano nos últimos cinco anos, e as construções continuam no que agora já se conhece como bairro de La Gloria.

Do dinheiro "sujo" do narcotráfico restam poucas coisas: a casa principal foi destruída e, em seu lugar, hoje há um centro municipal de proteção dos animais que aproveita os estábulos de Vargas, que era um amante dos cavalos.

No entanto, segue de pé um galinheiro de madeira na entrada da antiga casa que agora acumula poeira e ervas daninhas, onde o traficante costumava organizar brigas de galos.

Vargas tinha até uma pista de aterrissagem para seus pequenos aviões; hoje, essa pista é uma rua sem asfalto, como todas as que existem no bairro.

La Gloria é uma região humilde, onde até esta semana sequer havia uma loja para abastecer a população com verduras, frutas, arroz e produtos de higiene.

Uma escola e um centro juvenil são os equipamentos com os quais conta o bairro, cuja população cresce à medida em que os imóveis são entregues a seus beneficiados.

É esperada para agosto deste ano a entrega de casas para aproximadamente mais 160 pessoas, apesar dos beneficiados se queixarem das más condições nas quais se encontram os edifícios.

Na fazenda não há nada da riqueza que Leonidas Vargas ostentou através do comércio ilícito de cocaína, que rendeu ao traficante dinheiro e propriedades em muitos pontos do país.

O narcotraficante, a quem apelidaram de 'El Viejo' e 'El rey del Caquetá', chegou a ser um dos criminosos mais procurados da Colômbia e foi sócio nos anos 1980 do falecido mafioso Gonzalo Rodríguez Gacha, conhecido como "El Mexicano", chefe militar do extinto Cartel de Medellín, que era dirigido por Pablo Escobar.

Vargas era oriundo da região e, antes de dedicar-se ao narcotráfico, era açougueiro.

No entanto, houve um momento no qual começou a vender a carne em troca de cocaína, e começou assim no negócio ilícito, ou pelo menos essa é a história que contam alguns moradores de Florencia.

'El Viejo' foi capturado em 1995 e a Justiça colombiana o condenou a 19 anos de prisão, mas acabou sendo libertado apenas sete anos depois.

Sua história terminou em 8 de janeiro de 2009, há quase duas décadas, quando morreu assassinado a tiros aos 59 anos em um famoso incidente em um hospital de Madri, na Espanha, onde se recuperava - de forma incógnita - de uma doença cardiovascular.

Os jovens de La Gloria conhecem apenas o passado de seu bairro, mas os mais velhos têm lembranças claras do que foi o narcotraficante mais poderoso de sua terra.

De fato, muitos deles destacaram que 'El Viejo' era uma pessoa respeitada em Florencia e até "querida" pelos moradores do departamento, porque construiu uma praça de touradas na cidade e fez "várias ações de ajuda", explicou à Agência Efe Eduardo, o vigilante do atual centro de proteção animal, onde antes ficava a residência de Vargas.

Por outro lado, os adolescentes que saem à tarde do centro juvenil praticamente não sabem quem era o narcotraficante, e inclusive mostravam surpresa diante da pergunta.

Muitos chegaram a Florencia de diferentes pontos do país para receberem sua habitação social e tentam fazer amigos no bairro e se acostumar com a nova situação.

"Cheguei há poucos meses de Fusagasugá (centro) e não tinha ouvido falar deste traficante, mas deveria agradecê-lo por nos dar estas terras, não?", questionou uma jovem de 13 anos do bairro.

Ao saber que as terras foram desapropriadas de Vargas e que ele foi assassinado há nove anos, sua resposta é a seguinte: "Ah, mas ele está morto?".

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