"Brexit" marcará 20º aniversário do acordo de paz na Irlanda do Norte

Javier Aja.

Dublin, 10 abr (EFE).- A Irlanda do Norte comemora nesta terça-feira o 20º aniversário do acordo da Sexta-Feira Santa, que pôs fim ao conflito e iniciou um bem-sucedido processo de paz, marcado agora pela ausência durante mais de um ano de um governo de poder compartilhado entre protestantes e católicos e as incertezas do "Brexit".

Belfast será o centro dos eventos programados para lembrar as frenéticas jornadas da Semana Santa de 1998, com presença de protagonistas como o ex-presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, e o ex-senador americano George Mitchell, mediador daquelas históricas negociações entre os partidos norte-irlandeses e os governos de Londres e Dublin.

Mitchell redigiu a última minuta do acordo de paz finalmente aceito pelas formações políticas na Sexta-Feira Santa, depois das decisivas intervenções telefônicas de Clinton de Washington e do infatigável trabalho no terreno do então primeiro-ministro britânico, Tony Blair, e seu homólogo irlandês, Bertie Ahern.

Após meses de intermináveis e improdutivas conversas, o ex-senador tinha fixado a Quinta-Feira Santa como data limite para conseguir um pacto, mas a falta de avanços obrigou Blair a viajar para Belfast na terça-feira para tentar desbloquear a situação de uma sala preparada em Stormont, sede do parlamento regional, da qual só saiu uma vez em três dias e onde, dizem, sobreviveu à base de sanduíches e chocolate.

Ahern, por sua vez, tinha acabado de perder sua mãe no Domingo de Ramos, e durante os dias seguintes foi de Dublin a Belfast de helicóptero para participar das negociações e também do funeral da sua progenitora republicana, que sempre lhe dizia para "não confiar nos britânicos", segundo lembrou recentemente.

O texto do acordo era um complexíssimo roteiro para a paz, que abordava as raízes do conflito norte-irlandês; o terrorismo paramilitar e a violência do Estado; a anistia de prisioneiros e a dor das vítimas; assim como centenas de anos de tensões entre a Irlanda e o Reino Unido.

Sem o compromisso de Blair, Ahern, Mitchell, Clinton ou da ministra britânica para a Irlanda do Norte, a sempre otimista Mo Mowlam, teria sido impossível que políticos como David Trimble, líder do então majoritário Partido Unionista do Ulster (UUP), aceitasse a posição do Sinn Féin e do seu braço armado, o Exército Republicano Irlandês (IRA).

Entre outras questões, Gerry Adams e seu "segundo em comando", Martin McGuinness, tinham ressaltado que a guerra terminou e que o IRA entregaria suas armas depois do acordo e a formação de um governo de poder compartilhado, a qual se seguiria a libertação de paramilitares.

A ausência de um processo de desarmamento prévio levou o Partido Democrático Unionista (DUP) do reverendo Ian Paisley a boicotar as negociações de paz e rejeitar o acordo da Sexta-Feira Santa.

De fato, o IRA efetuou sua última entrega de armas em 2005 e o Sinn Féin não reconheceu publicamente a autoridade da Justiça e da reformada polícia norte-irlandesa até 2007, quando estes atrasos já tinham provocado a queda de Trimble como ministro principal e do Executivo autônomo em 2002.

Durante as conversas, Adams e McGuinness precisavam obter concessões para evitar uma grande cisão no IRA, ao qual deviam " vender "um acordo que deixasse a porta aberta à unificação da Irlanda, embora sempre com o consenso da comunidade unionista e através de meios exclusivamente pacíficos e democráticos.

Ambos os dirigentes já tinham assumido essa tese há tempos, quando Adams e John Hume, líder do Partido Social-Democrata Trabalhista (SDLP, nacionalista moderado) iniciaram um diálogo secreto para acabar com o conflito em 1988.

Dez anos mais tarde, na Sexta-Feira Santa, o SDLP e o UUP, principais representantes das suas comunidades, anunciavam que havia acordo, mas Trimble recuou depois e pediu a Blair mais garantias sobre o desarmamento.

O primeiro-ministro as deu e também pediu a Clinton que pegasse o telefone para persuadí-lo com uma ligação, após a qual Trimble retornou à mesa de negociações com o "sim" embaixo do braço.

A notícia era esperada do lado de fora pelos vários veículos de imprensa presentes no estacionamento de Stormont, onde tinham sido instalados banheiros químicos, como em um festival de música, e estavam de guarda há vários dias sob um frio intenso e nevascas, pouco habituais em abril como o que tinha acontecido dentro do castelo.

Era o fim do conflito e o começo de um complicado processo político não isento de obstáculos, como os que surgem agora com a disputa entre o DUP e o Sinn Féin, os dois grandes partidos norte-irlandeses, cujas diferenças mantêm o Executivo autônomo suspenso desde janeiro de 2017.

A saída do Reino Unido da União Europeia (UE) também ameaça restabelecer uma fronteira estrita na Irlanda do Norte, cujo desaparecimento com o processo de paz trouxe prosperidade e ajudou a reconciliação na ilha.

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