Especialistas em Maria Madalena defendem que ela não era prostituta

María Sevillano.

Jerusalém, 12 abr (EFE).- Desde as ruínas da cidade de Magdala, na Galileia, no norte de Israel, tenta-se reconstruir a imagem de Maria Madalena, e, como reivindicam os especialistas, tirar o adjetivo de prostituta que durante séculos lhe acompanhou.

Maria Madalena, que teria descoberto a tumba vazia de Jesus e, segundo o evangelho de São Marcos, presenciou sua ressurreição junto a "outra Maria", é considerada santa pelos credos católico, ortodoxo, anglicano e luterano do cristianismo, lembrada no calendário gregoriano com uma festividade em 22 de julho, e o papa Francisco elevou seu status litúrgico a "apóstola dos apóstolos".

Mas, no imaginário popular, Maria Madalena é mais conhecida como uma pecadora que, arrependida, teria caminhado ao lado de Jesus como uma fervorosa seguidora, depois de abandonar um caminho de obscuras paixões que, séculos mais tarde, ainda lhe rendem uma fama alimentada em canções, livros e filmes que especulam sobre como foi sua vida, da qual pouco se sabe.

"Maria era a líder do grupo de mulheres que acompanhava e apoiava Jesus, também com seus bens, e não me convence que este fosse o perfil de uma prostituta, que em geral está mais vinculado à pobreza", declarou à Agência Efe o padre Juan Solana, que lidera o projeto Magdala na Terra Santa e divide seus dias entre Jerusalém e a histórica cidade às margens do mar da Galileia.

Neste enclave, que os evangelhos atribuem em até 12 ocasiões como o local de origem de Maria, Solana explica que os achados arqueológicos feitos nos últimos anos revelam um pouco mais da vida na época e respaldam a crença de que se tratava de um próspero ponto de comércio, com fortes atividades pesqueira e de exportação de sal para Roma.

Lá se contempla a teoria proposta por especialistas de que esta devota teria tido uma boa posição econômica, derivada talvez da morte do seu marido, de quem pode ter herdado uma fortuna com a qual teria apoiado Jesus.

Mas, em certo momento da história, a percepção de como era Maria teria se alterado, destacou o padre Solana. Uma dessas ocasiões foi quando houve uma interpretação muito literal e com certa aversão dos evangelhos, como em Lucas 8:1-3.

"E aconteceu, depois disto, que andava de cidade em cidade, e de aldeia em aldeia, pregando e anunciando o evangelho do reino de Deus; e os doze iam com ele e algumas mulheres que haviam sido curadas de espíritos malignos e de enfermidades: Maria, chamada Madalena, da qual saíram sete demônios; e Joana, mulher de Cuza, procurador de Herodes, e Suzana, e muitas outras que o serviam com seus bens", afirma a passagem.

Outro momento foram as palavras do papa Gregório em uma homilia do século VI na qual fundiu em Madalena as figuras de Maria de Betânia, irmã de Marta e Lázaro que lavou os pés de Jesus com seus cabelos, e uma mulher acusada de adultério a quem Cristo salvou de ser apedrejada.

"Maria Madalena podia ter sido uma santa a quem Deus consentiu que o demônio incomodasse ou tentasse", afirmou o religioso, acrescentando que cabe a possibilidade de que essas mulheres fossem "pessoas com sua própria história, personalidade".

"No entanto, as pinturas renascentistas a tratam como uma pecadora arrependida (...) Daí passou à arte, à imaginação popular, à literatura, etc. E se criou uma grande confusão, que perdura até hoje na mente de muitos", completou, ressaltando que no seio da Igreja esse não é o pensamento reinante, especialmente depois de uma exegese feita em meados do século passado.

Jennifer Ristine - presidente do Instituto Madalena e especialista nesta personalidade, sobre quem prepara um livro - destacou à Efe que "a imagem de Maria Madalena foi criada com base na ficção, em tradições e interpretações erradas através dos séculos", lamentando que "é difícil saber onde começou isto".

Nesse sentido, ela lembrou que nos séculos XIV e XVI era retratada com o peito descoberto, o cabelo loiro ou ruivo muito longo, em uma época em que existia uma tendência de que as cortesãs "pintassem seu cabelo de loiro", razão pela qual destaca que já existia esta associação "que se viu através dos séculos" até a atual cultura popular.

"É a mulher mais citada no evangelho, o que significa que para os primeiros grupos cristãos era, certamente, uma mulher muito importante, conhecida e influente", defendeu a especialista.

Para ela, "todo este assunto é complexo, uma lição moral. Tudo o que dizemos começa a formar ideias na mente das pessoas e deriva em uma reputação".

"Temos algumas pistas de sua vida, mas realmente continua sendo um mistério com toda a cultura que cresceu ao longo dos séculos", concluiu Ristine, que continuará tentando decifrar a história desta Maria que, como ela garante, realmente existiu.

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