Kremlin se livra do último prefeito opositor

Ignacio Ortega.

Moscou, 13 abr (EFE).- O último remanescente da oposição russa com poder considerável, Yevgeny Roizman, prefeito de Ecaterimburgo, tem os dias contados no cargo após a eliminação das eleições diretas à prefeitura conforme determinação do partido do Kremlin, Rússia Unida.

"Eles têm medo de mim. Sabem perfeitamente que se deixassem me candidatar à reeleição derrotaria outra vez o candidato do Kremlin", comentou o político à Agência Efe.

Roizman, que governa a capital do Distrito Federal dos Urais desde 2013, é o único prefeito opositor de uma cidade russa com mais de um milhão de habitantes, mas terá de deixar o posto quando forem realizadas as eleições municipais em setembro.

Historiador de formação, Roizman não é um político padrão. A primeira coisa que ele fez ao chegar à Câmara Municipal foi retirar o retrato do presidente Vladimir Putin e substituí-lo por outro do poeta Joseph Brodsky.

O opositor diz que já sabia que o governador da região de Sverdlovsk, cuja capital é Ecaterimburgo, introduziria essa emenda assim que Putin fosse reeleito, como veio a ocorrer no dia 18 de março.

"Há muito tempo deixaram de respeitar o povo. Eles têm medo do próprio povo. O governador se deu o direito de eliminar as eleições diretas. Antes das eleições presidenciais prometeram muitas coisas, mas assim que fecharam as urnas se sentem livres", argumentou.

Quando soube que a iniciativa seria votada na assembleia regional, Roizman convocou um protesto que reuniu cerca de 10 mil pessoas, a maior manifestação em anos na cidade natal do primeiro presidente russo, Boris Yeltsin.

"A eliminação das eleições diretas é um insulto, mas não nos renderemos. Rendição não está no nosso vocabulário. Ecaterimburgo é a única que luta pelos seus direitos e contra os poderes financeiros", frisou.

Nas cidades onde opositores chegaram à prefeitura - Iaroslavl, Togliatti e Petrozavodsk - também foram eliminadas as eleições diretas, que só estão mantidas em Moscou, São Petersburgo e outros sete lugares.

Segundo a nova lei, Roizman ainda poderia teoricamente ser indicado como candidato à prefeitura por uma comissão especial integrada por deputados e integrantes do governo, mas ele se nega a participar desse "teatro".

"Não é a mesma coisa um poder eleito e um designado. Eu não tenho nem quero ter chefes, eu respondo só aos que votaram em mim", comentou.

O Kremlin negou ter algo a ver com essa decisão. Roizman tentou apresentar há alguns meses a candidatura às eleições a governador, mas foi impedido de se registrar, embora não tenha antecedentes penais.

"Decidiram limpar o panorama político. Está claro que nos próximos seis anos a situação vai piorar, o que ocorreu em Ecaterimburgo é só um sinal", afirmou.

Na véspera das eleições presidenciais, Roizman convocou o povo a um boicote, da mesma forma que o líder opositor Alexei Navalny.

"Não participei das eleições presidenciais, nem como eleitor nem como observador. Não as considerei livres nem democráticas. Desde que Putin voltou ao Kremlin em 2012 já se sabia quem as ganharia. Mas, se fossem livres, Putin também ganharia", reconheceu.

Alguns se perguntam como Roizman ainda continua vivo, já que se trata de um político que pede a libertação de presos políticos, convoca um boicote eleitoral e critica a intervenção russa na Ucrânia e na Síria.

"Estamos a caminho de uma nova União Soviética, de um confronto com o restante do mundo, da Guerra Fria. Graças aos céus, ainda não fecharam as fronteiras. Isto é a Rússia, somos imprevisíveis. Podemos falar de cem variantes e ocorrerá a 101ª", teorizou.

Seja como for, Roizman é otimista e acha que, cedo ou tarde, "o país optará por uma via de desenvolvimento similar à europeia, já que a Rússia é parte da Europa, seja a maior ou a pior parte do continente", segundo ele.

"Apesar da falta de tradições históricas civilizadas, a Rússia é um país europeu com população média com um alto nível cultural e educacional. Nossas conquistas e similaridades nos unem", ressaltou.

Roizman, que ficou famoso ao criar uma fundação em 1999 para a luta contra a toxicomania, afirma que quando abandonar a Câmara Municipal em setembro dará uma pausa, embora admita que recebeu propostas para se unir às novas alianças opositoras.

"Espero que quando abandonarmos a Ucrânia e a Síria mantenhamos boas relações com todos os nossos vizinhos, aprendamos com nossos erros e nos dediquemos a construir um novo país", finalizou.

Receba notícias do UOL. É grátis!

Facebook Messenger

As principais notícias do dia pelo chatbot do UOL para o Facebook Messenger

Começar agora

Newsletter UOL

Receba por e-mail as principais notícias, de manhã e de noite, sem pagar nada. É só deixar seu e-mail e pronto!

UOL Cursos Online

Todos os cursos