Peru recebe Cúpula das Américas com corrupção na região como tema principal

Álvaro Mellizo.

Lima, 13 abr (EFE).- A edição de Lima da Cúpula das Américas, cujo tema central será a "governabilidade democrática frente à corrupção", terá um exemplo paradigmático da devastação política, social e econômica que essas práticas causam na região.

Muitos poucos teriam imaginado em 11 de abril de 2015, quando Lima foi escolhida como sede da maior reunião de líderes continentais, que o país chegaria ao evento em meio à luta para sair de uma profunda crise de governo e com toda a classe política questionada, como fruto das maciças práticas de suborno e corrupção que se revelaram com as investigações do braço peruano da Operação Lava Jato.

Hoje, o panorama institucional no Peru é desolador. Um ex-presidente está em prisão preventiva à espera de julgamento (Ollanta Humala), outro em busca e captura e foragido nos Estados Unidos (Alejandro Toledo), e um terceiro sob investigação judicial (Alan García).

Pedro Pablo Kuczynski - eleito em 2016 e que fez da Cúpula das Américas, da qual se orgulhava de ser anfitrião, um evento centrado na luta contra a corrupção - foi forçado a renunciar no último mês de março tanto pelos seus vínculos com a Odebrecht como pelas suas obscuras manobras para evitar ser destituído pelo Congresso.

Apenas um dia depois da sua renúncia, a Justiça lhe impôs a proibição de sair do país e a procuradoria entrou na sua residência para buscar possíveis evidências de corrupção.

O também ex-presidente Alberto Fujimori, que já cumpria 25 anos de prisão por crimes contra a humanidade e corrupção durante seu governo (1990-2000), foi indultado em dezembro do ano passado de forma controversa por Kuczynski.

Enquanto isso, o Congresso se vê envolvido em investigações fiscais e parlamentares, denúncias e trocas de acusações em torno da corrupção que afetam tanto o governo como a oposição liderada pelo Força Popular, partido liderado por Keiko Fujimori e o qual Marcelo Odebrecht já confessou ter financiado irregularmente.

Um dano colateral, que cresce com cada vez mais virulência, é a virtual paralisação da obra pública e dos empréstimos bancários para o financiamento da construção de infraestruturas.

Ao ver empresas construtoras beneficiadas por autoridades, e bancos emprestarem dinheiro a empresas que podem ter incorrido em subornos para ganhar concursos, o Peru perdeu vários pontos de crescimento no último ano e meio, sem que por enquanto não tenha acontecido nada que permita reverter essa situação.

Na população e entre os críticos e analistas o fastio é patente e parece se ter chegado a um ponto de ruptura sobre a percepção da corrupção praticada pelas elites políticas peruanas desde tempos coloniais.

"Evidentemente a cúpula acontece em um momento crítico no Peru, com um presidente que acaba de renunciar para evitar ser destituído acusado de corrupção. Nesse ambiente, a temática tem particular relevância e o desejável é que se consiga estabelecer na reunião pautas gerais globais na região para combater a corrupção", declarou à Agência Efe Fernando Rospigliosi, ex-ministro do Interior e analista político peruano.

O até então vice-presidente Martín Vizcarra assumiu a chefia do Estado no último dia 23 de março em substituição de Kuczynski com a firme promessa de atacar essa praga, promessa à qual também se têm somado os representantes do Congresso, apesar de muitos deles estarem implicados de um modo ou outro em práticas irregulares.

Nesse sentido, Rospigliosi destacou que o novo presidente poderá receber sem constrangimento os convidados para tratar o espinhoso tema da corrupção "pelo fato de que o Peru mudou o presidente acusado", o que poderia ajudar a "mostrar que se avança" nessa luta.

"Isso para o país será importante, assim como será importante que se tratem temas que provem que se pode atacar a corrupção", acrescentou o ex-ministro.

Rospiglioso destacou que isto poderá ser feito apesar do fato de que, "sem dúvidas", haverá presidentes presentes na cúpula que "não têm nenhum interesse" em acabar com a corrupção.

"Existe pressão da opinião pública, pelo menos onde esta existe, e presumo também que há pressões dos países e das democracias avançadas para que isso mude. Poderá haver acordos benéficos", concluiu.

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