Freira de Ruanda salvou 100 meninas durante genocídio de quase 100 dias

George Kalisa.

Kigali, 14 abr (EFE).- Sobreviventes do genocídio de 1994 em Ruanda contam que igrejas, colégios religiosos e estádios se transformaram em matadouros durante um período de aproximadamente 100 dias, mas houve uma exceção: a escola feminina de uma freira que salvou uma centena de jovens.

Helene Nayituliki, ou irmã Helene, como é comumente conhecida, acolheu as estudantes na Escola de Enfermaria e Obstetrícia da cidade de Rwamagana, na Província Oriental de Ruanda.

Hutus e tutsis, os dois grandes grupos étnicos de Ruanda, conviviam como vizinhos e compartilhavam uma história e uma cultura, até que em 7 de abril de 1994 começou o massacre que causou a morte de aproximadamente 800 mil tutsis e hutus moderados.

As testemunhas dizem que, durante o massacre, os clérigos entregavam as vítimas às milícias armadas, e inclusive as matavam, mas houve algumas religiosas, como irmã Helene, da etnia hutu, que se negaram a participar da barbárie.

"Eu segui minha consciência, que era condizente com a moralidade e a obrigação de uma mãe de proteger suas alunas e o pessoal com quem trabalhava", lembrou Nayituliki em entrevista à Agência Efe, quando se completam 24 anos da tragédia provocada por membros da maioria hutu contra a minoria tutsi.

As imagens de corpos banhados em sangue por todas as partes lhe levaram a pensar que suas alunas seriam presas fáceis para os assassinos que, naquele momento, estavam à espreita das vidas de tutsis inocentes.

Nascida em maio de 1955, a irmã Helene se recorda de um encontro com alguns agressores que lhe pediram que entregasse uma jovem viúva que viajava com ela no carro, enquanto fugiam para o que acreditavam ser uma área mais segura.

"Sinceramente lhes disse que, se queriam matá-la, teriam que me matar primeiro. Discutimos durante horas até que me deixaram seguir", lembrou.

Quando o genocídio começou, irmã Helene estocou alimentos e pediu a suas estudantes de ambas as etnias que não saíssem do centro e mantivessem silêncio.

"O pior momento - explicou - foi o dia 6 de abril de 1994, quando o avião que transportava o presidente (ruandês, o hutu) Juvenal Habyarimana foi derrubado", um incidente que provocou sua morte e a do governante do Burundi, Cyprien Ntaryamira, que o acompanhava, e que desatou o genocídio, que duraria até 4 de julho.

"As milícias Interahamwe (grupos paramilitares hutus), que haviam acampado em Rwamagana e onde já tinham matado uma grande quantidade de tutsis, invadiam minha escola a cada dois dias perguntando pelas pessoas que estavam lá dentro", contou Helene com voz suave, mas fazendo pausas constantes.

As milícias estavam dispostas a matar as estudantes: "Eram 50 estudantes às quais se juntaram outras jovens, mas eu estava determinada a salvar todas elas, independente da etnia".

No auge da tragédia, a religiosa decidiu fretar um caminhão para fugir com as jovens para uma região que acreditava ser mais segura.

"Como nem todas eram minhas alunas, fiz uniformes e cartões de identificação para todas e nos preparamos para fugir. Disse a elas que entrassem no caminhão rumo a Butare (sudoeste)", relatou Helene.

No caminho, a freira e as meninas se depararam com um posto de controle de hutus que interceptou o veículo.

"Presenciamos como (eles) matavam jovens tutsis. Eles os agarravam e levavam para uma região que na época servia de mercado de gado", disse a religiosa.

"Lhes supliquei piedade durante horas para que não fizessem o mesmo com minhas alunas, e lhes ofereci dinheiro como última opção para que mudassem de ideia", acrescentou.

Por fim, Helene revelou aliviada que os guerrilheiros hutus as deixaram retornar para a escola de Rwamagana.

Irmã Helene e as jovens viveram na escola dias de terror. Tanto as estudantes tutsis como as hutus estavam aterrorizadas, uma vez que os assassinos não sabiam determinar seu grupo étnico, o que condenava todas elas ao mesmo destino mortal.

Para sobreviver, a irmã teve que subornar os carrascos, que inclusive estipularam uma data para a sentença de morte das moças: 21 de abril.

Como se fosse um milagre, grupos armados da Frente Patriótica de Ruanda (RPA, na sigla em inglês), o atual partido do presidente Paul Kagame, chegaram a tempo de libertar as estudantes da escola e levá-las para um hospital seguro.

Anos depois, a Igreja Católica pediu perdão pelos crimes cometidos por integrantes dessa fé e alguns religiosos católicos foram inclusive condenados por sua participação no genocídio.

Irmã Helene, por sua vez, recebeu em 2007 das mãos de Kagame uma condecoração por sua coragem diante de um genocídio que comoveu o mundo.

Receba notícias do UOL. É grátis!

Facebook Messenger

As principais notícias do dia pelo chatbot do UOL para o Facebook Messenger

Começar agora

UOL Newsletter

Para começar e terminar o dia bem informado.

Quero Receber

UOL Cursos Online

Todos os cursos