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Não reconhecido pelas autoridades, mosteiro de monjas resiste na Tailândia

15/04/2018 06h22

Gaspar Ruiz-Canela.

Phra Prathon (Tailândia), 15 abr (EFE).- Como a aldeia de Asterix e Obelix, o mosteiro de monjas budistas Songdhammakalyani se mantém irredutível diante da oposição das autoridades tailandesas, que se negam a reconhecer oficialmente a ordem monacal feminina.

O barulho dos carros da rodovia não perturba a paz das candidatas a noviças, que praticam os rituais para sua ordenação no mosteiro, situado na província de Nakhon Pathom, próxima a Bangcoc.

As candidatas, vestidas de branco, desfilam junto ao tanque do centro religioso e praticam as orações em uma sala abaixo de uma grande estátua budista, um dia antes de serem temporariamente ordenadas como noviças, uma prática que até recentemente era vetada para mulheres.

O Songdhammakalyani realiza as funções de qualquer templo na Tailândia, mas não pode ser denominado assim porque as monjas ou "bhikkhunis" não são reconhecidas pelo Conselho Supremo da Sangha, máxima autoridade budista, nem pelo governo.

"Não somos reconhecidas pelas autoridades, mas não somos ilegais. Não nos reconheceram ainda, mas terão que fazê-lo no futuro", explica à Agência Efe Dhammananda, a primeira mulher ordenada na Tailândia como monja theravada, a escola majoritária no país.

A religiosa, de 73 anos, é otimista, ao lembrar que em 1983 não havia nenhuma monja theravada na Tailândia e atualmente há 270 em todo o país, 30 delas no Songdhammakalyani.

"Eu fui ordenada no ano de 2001 e fui a primeira. Agora, 17 anos depois, já temos 270 'bhikkhunis' ordenadas. O número está crescendo de maneira rápida e se estendeu a pelo menos 30 províncias", afirma.

No entanto, Dhammananda reconhece que sua situação "ilegal" as impede de receber ajudas do governo e isenções fiscais, como ocorre em outros templos de monges ou "bhikkhus".

Devido à oposição pela hierarquia da "sangha", como é conhecido o monaquismo budista, as noviças tailandesas que querem ser ordenadas como "bhikkhunis" de forma permanente têm que fazê-lo no Sri Lanka ou na Índia.

As autoridades religiosas alegam que a ordem "bhikkhuni" nunca existiu na Tailândia e que desapareceu na escola budista theravada há séculos, por isso não é possível sua reinstalação segundo o regulamento.

A religiosa opina, no entanto, que é mais importante honrar uma instituição estabelecida pelo mesmo Buda do que as considerações normativas.

As autoridades tailandesas reconhecem as "mae chi", um tipo de monja não consagrada que não pode conduzir rituais e que costuma ajudar nas tarefas domésticas nos templos.

Segundo as escrituras budistas, a primeira mulher ordenada por Buda foi Mahapajapati, sua tia materna e quem o criou após a morte de sua mãe, e outras 500 mulheres do palácio onde nasceu o fundador do budismo.

A ordem das "bhikkhunis" se estendeu por grande parte da Ásia e, por volta do século XII, tinha desaparecido dentro da corrente theravada, embora não na escola mahayana arraigada em países como China, Japão, Coreia e Vietnã.

Em 1927, as filhas de um político tailandês tentaram reviver a ordem feminina após serem ordenadas por vários monges, mas foram detidas temporariamente e obrigadas a abandonar os hábitos.

A liderança da "sangha" proibiu no ano seguinte a ordenação monjas no país, norma que continua em vigor.

Três décadas depois, a mãe de Dhammananda, Voramai Kabilsingh, fundou o mosteiro Songdhammakalyani e, em 1971, foi ordenada como monja dentro da escola mahayana em Taiwan.

Embora o mosteiro conserve elementos mahayana, como uma grande estátua dourada de Buddhai e da bodhisattva Guan Yin na entrada, as monjas de lá seguem a doutrina e o ritual theravadas.

No mosteiro, as aspirantes se preparam para continuar a vida monacal durante nove dias, com estritas regras, como não comer após o meio-dia, raspar a cabeça e vestir uma túnica alaranjada, embora algumas delas possam decidir ficar na ordem de forma permanente.

"Sinto-me em paz, relaxada e orgulhosa de ser mulher e poder me ordenar aqui", diz à Efe Pimnalin Chunhawiriyakul, uma professora de inglês de 35 anos e aspirante a noviça.

Tradicionalmente, só os homens podiam se ordenar temporariamente e dedicar parte do mérito às suas mães, mas agora este mosteiro rebelde permite que as mulheres se dediquem de corpo e alma a seguir os passos de Buda.