Legado do povo núbio busca reconhecimento internacional

Isaac J. Martín.

Assuã (Egito), 2 mai (EFE).- Entre a areia do deserto e a brisa do rio Nilo que percorre a cidade de Assuã, no sul do Egito, há um museu que busca obter reconhecimento internacional ao legado do povo núbio para acabar com o desconhecimento sobre sua história.

A alguns passos do lendário hotel Old Cataract de Assuã, onde dizem que a escritora Agatha Christie se inspirou para o romance "Morte no Nilo", é possível chegar ao renovado Museu Núbio, no qual é traçada a cronologia dos herdeiros desta antiga cultura.

"Esta região do Egito é muito desconhecida. Quero levar ao museu um nível alto de pesquisa para que seja competitivo internacionalmente", disse Hosni Abdelrahim, diretor do museu.

Quando Abdelrahim aceitou o cargo, há quatro anos, se deparou com uma infraestrutura "destrambelhada pelos anos de instabilidade" no país, onde quase não havia turismo, por isso começou a renovar todos os serviços para "colocar o museu no mapa turístico".

Pouco a pouco esses objetivos vão sendo alcançados pelo museu, inaugurado em 1997 em cooperação com a Unesco, convidando principalmente as escolas de todo o Egito, para conhecer a realidade do país, e expedições estrangeiras.

"Sonho em ter uma base de dados com todos os lugares monumentais, as tradições. Ter tudo em uma lista de variedade cultural da África. Quero acabar com os estereótipos e misturar as culturas porque as pessoas não sabem que somos africanos, e se surpreendem", afirmou Abdelrahim.

Os núbios, de pele escura e cujo idioma é proibido de ser ensinado nas escolas, se consideram marginalizados em terras egípcias após os sucessivos governos terem descumprido as promessas de permitir que retornassem ao seu território, de onde foram expulsos há meio século pela construção da represa de Assuã.

O diretor do museu, que acumula longa trajetória no âmbito de antiguidades no Egito, quer manter "laços culturais com muitos países africanos e fortalecer as relações, já que há muitas coisas em comum com eles".

Para se tornar referência no continente africano, a próxima meta de Abdelrahim é criar um centro de pesquisa científica para informar mais sobre as peças desta civilização que remonta há mais de seis mil anos e que se localizava na atual fronteira entre o sul do Egito e o Sudão.

Este museu, que passou a ser uma recordação do que foi perdido com a criação do lago artificial Nasser - em homenagem ao antigo presidente egípcio Gamal Abdel Nasser, cujo centenário foi comemorado em janeiro -, foi parte do fundo econômico de salvação da Unesco, mas agora "o dinheiro procede de Núbia".

O financiamento desta instituição é "egípcio, não é estrangeiro", explicou o representante do museu.

Nesta missão de encontrar espaço no cenário internacional, Abdelrahim conta com a equipe espanhola de Qubbet el-Hawa, liderada pelo egiptólogo Alejandro Jiménez, que neste ano completou uma década de escavações em uma necrópole situada em Assuã.

"Essa expedição teve a inteligência de não pensar como as anteriores que trabalharam na região. Em vez de buscar novos túmulos, decidiu se limitar a limpar as valas que as expedições anteriores ignoraram, e conseguiram excelentes conclusões", analisou o diretor.

A previsão é que em poucos meses a missão espanhola exponha uma parte das descobertas sobre os governadores de Elefantina, o que também servirá de "divulgação" para o museu núbio.

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