Governo espanhol reitera que ETA não ficará impune apesar de sua dissolução

Madri/San Sebastián (Espanha), 3 mai (EFE).- O governo da Espanha ressaltou nesta quinta-feira que a ETA não encontrará "nenhum resquício para a impunidade" apesar das sucessivas mensagens sobre sua dissolução, aos quais o grupo terrorista somou hoje um comunicado e um vídeo no qual anuncia "o final da sua trajetória" e o "desmantelamento" total "do conjunto das suas estruturas".

Depois de quase 60 anos de existência, com mais de 850 mortes em suas costas, a ETA anunciou hoje sua dissolução, sem ter conseguido nenhum objetivo político e com quase 300 terroristas em prisões da Espanha e da França, graças ao trabalho judicial e policial, que foram deixando o grupo cercado.

Na sua última mensagem, informada pelo jornal "Berria" e o portal "Naiz", a organização terrorista afirma que "ratificou" a proposta da direção de "dar por concluídos o ciclo histórico e a função da organização", e por isso "dá por concluída toda sua atividade política".

O comunicado é complementado com um vídeo no qual se escuta a voz dos "etarras" históricos Josu Urrutikoetxea e Marisol Iparraguirre lendo a declaração em euskera (língua vernácula basca) e em castelhano.

"A ETA pode anunciar seu desaparecimento, mas não desaparecem seus crimes nem a ação da Justiça para persegui-los e castigá-los", ressaltou o presidente do governo da Espanha, Mariano Rajoy, que deu por liquidada qualquer possibilidade de uma mudança na política penitenciária para propiciar uma aproximação dos presos do grupo terrorista das prisões do País Basco.

"A única política de futuro em matéria antiterrorista, como sempre, é aplicar a lei", acrescentou, em referência a declarações do presidente do governo regional basco, Íñigo Urkullu, nas quais assegurava que Rajoy "é sensível a uma mudança na política penitenciária".

A velha reivindicação da ETA e seu entorno de aproximar seus presos das prisões do País Basco esteve presente hoje entre as várias reações à dissolução do grupo terrorista.

Entre elas a do secretário de Política Federal do PSOE e ex-chefe do Executivo basco, Patxi López, que defendeu a aproximação desses presos "sem calendário e com discrição", embora tenha esclarecido que seu partido não fará nenhuma solicitação ao governo espanhol nesse sentido.

Com essa aproximação, segundo López, não se fala de "libertar ninguém, se trata de aproximá-los das prisões bascas", e não seria uma resposta ao anúncio da ETA, mas "um acompanhante" da luta antiterrorista.

Para as vítimas do terrorismo o anúncio de dissolução da ETA não é mais que a constataçào da sua derrota, embora o grupo não a tenha assumido nem se tenha responsabilizado por sua atividade criminal, que não deve ficar impune nem ser premiada com a aproximação dos seus presos, segundo disseram várias associações.

"Porque ainda existem mais de 300 crimes da ETA sem esclarecer, além de vítimas desaparecidas, o grupo terrorista não pode encontrar nenhuma via para a impunidade dos seus crimes. Nada lhes devemos, nada lhes daremos", afirmou a Fundação Vítimas do Terrorismo (FVT) em comunicado.

Em declarações à Agência Efe, o presidente da Associação de Vítimas do Terrorismo (AVT), Alfonso Sánchez, qualificou de "inédita" e "absurda" a mensagem da organização terrorista.

"Isto é uma cortina de fumaça. No final os criminosos assassinos ficam como os bons meninos com atos de celebração sem que o governo faça nada", denunciou Sánchez.

A seção espanhola da Anistia Internacional (AI) também avaliou o desaparecimento do ETA como "um marco que fecha um período negro" e pediu que se impulsione uma agenda comum de direitos humanos no País Basco.

Além disso, reivindicou informação detalhada e separada de todos os abusos cometidos pela organização terrorista, já que muitas das vítimas ainda não foram identificadas ou indenizadas.

O passo dado hoje pela ETA já era previsto e nesta própria quarta-feira foi publicada uma carta, datada de 16 de abril, na qual antecipava o anúncio de hoje.

Para amanhã está convocado em Cambo (sul da França) um ato para marcar o final da ETA com a presença de representantes de várias entidades sociais e políticas e cargos eleitos franceses e alguns políticos nacionalistas procedentes do País Basco.

O grupo terrorista nasceu no final dos anos 50 do século passado e seu primeiro crime reconhecido foi o assassinato de um guarda civil em 1968.

Desde então, e até outubro de 2011 quando anunciou a cessação da atividade armada, matou mais de 850 pessoas, 40% delas civis.

Além dos assassinatos, a ETA utilizou o sequestro como arma para conseguir dinheiro e aterrorizar a população, assim como a extorsão a empresários bascos.

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