Guerra do Irã na internet faz nova vítima: o Telegram

Marina Villén.

Teerã, 4 mai (EFE).- Após um mês de ameaças, as autoridades iranianas bloquearam o popular serviço de mensagem Telegram, que se juntou agora à lista de redes sociais como Facebook e Twitter que estão proibidas no país por serem consideradas "perigosas".

O Telegram tem cerca de 40 milhões de usuários no Irã, quase a metade da população do país, e há menos de duas semanas era utilizado também pelo governo como canal de comunicação com os cidadãos.

O primeiro aviso deste controverso bloqueio foi dado pelo chefe da Comissão de Segurança Nacional do Parlamento, Alaeddin Boroujerdi, que denunciou "o papel destrutivo" do Telegram e a sua iminente substituição pelo sistema interno Sorush.

A rejeição ao Telegram cresceu entre as autoridades depois que foram convocados protestos antigovernamentais no final do ano passado em alguns dos seus canais, quando o aplicativo ficou bloqueado durante duas semanas.

De fato, a decisão do Poder Judiciário iraniano para restringir o acesso ao aplicativo alegou que o sistema causou prejuízo à segurança do país por ser utilizado para "provocar caos e distúrbios" e divulgar "propaganda contra o sistema da República Islâmica".

A reação popular não demorou. Após a decisão judicial, os usuários compartilharam pelo Telegram diversos aplicativos que disponibilizam o acesso a VPNs (redes privadas virtuais) e garantiram que continuarão divulgando "as traições dos responsáveis ao povo".

"O Telegram é o único lugar onde podemos revelar estes temas, e por isso se transformou em uma ameaça para a República Islâmica", afirmaram os canais de oposição.

Em troca, as autoridades começaram a divulgar no último mês sistemas locais como o Sorush, criado há dois anos, com pouco mais de 3 milhões de usuários, mas a desconfiança dos cidadãos é grande.

Uma das brincadeiras que circularam nas últimas semanas dizia: "Para baixar o Sorush, mandem o número 1 ao 1000397 e aproveitem para que suas conversas sejam escutadas".

"Quando você instala o Sorush, o aplicativo imediatamente faz uma foto sua. Acredito que precisam dela para completar seu registro", indicava outra brincadeira.

Alguns chamaram este aplicativo de "sistema de rastreamento e escuta", enquanto outros divulgaram uma foto de uma mulher com uma roupa mais liberal censurada junto à frase "quando sua namorada te manda uma foto dela pelo Sorush".

Uma usuária do Telegram, Nilufar, que tem um canal no aplicativo para informar sobre as atividades em sua academia de dança, falou à Agência Efe sobre seu receio de usar o Sorush.

"Dizem que o aplicativo está sendo vigiado pelas autoridades, e nós no canal anunciamos algumas aulas como a zumba, que está proibida, por isso continuaremos com o Telegram e informaremos a partir de agora também pelo Instagram", explicou.

Na mesma linha, Ali, dono de uma empresa de exportação e que se comunica com seus advogados pelo Telegram, disse à Efe que não confia no Sorush.

"Não vamos usar o aplicativo que eles (as autoridades) querem", afirmou.

O Telegram é considerado seguro porque não compartilha os dados de seus usuários com os governos, motivo pelo qual passou a ficar na mira de vários países, como a Rússia, que bloqueou o serviço neste mês, desencadeando protestos populares em defesa da liberdade na internet.

Assim como Nilufar, a maioria pretende continuar utilizando o Telegram com programas VPNs, embora a decisão judicial para os servidores de internet locais também falasse sobre impossibilitar o uso com estes sistemas.

A luta para controlar a informação na internet é também uma batalha interna do sistema: o bloqueio do Telegram pela Justiça aconteceu apenas uma semana depois que o presidente Hassan Rohani disse que o aplicativo não seria censurado.

Rohani prometeu aos cidadãos liberdade na internet e que a ideia com a divulgação do Sorush era "acabar com o monopólio dos serviços de mensagem", mas não bloquear os outros aplicativos.

Apesar de tudo, o próprio governo proibiu seus órgãos de usar o Telegram depois de 18 de abril, mesmo dia em que o líder supremo, Ali Khamenei, fechou seu canal no aplicativo. Talvez tenha sido a decisão que desencadeou tudo.

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