Sectarismo ainda domina o Iraque apesar das alianças eleitorais entre blocos

Amre Hamid.

Bagdá, 9 mai (EFE).- O Iraque realizará eleições parlamentares no próximo sábado, nas quais se prevê que será mantida a correlação de forças que divide o poder desde 2005 com base em divisões sectárias, o que, segundo analistas, se transformou em uma realidade no país.

Os partidos xiitas, que dominaram a política iraquiana desde a queda do regime de Saddam Hussein, devem continuar girando as engrenagens do poder, apesar de concorrem separadamente no pleito e, em alguns casos, chegarem à disputa na companhia de legendas de outras confissões religiosas.

Até mesmo o partido governante, Dawa, se dividiu em duas chapas, uma liderada pelo primeiro-ministro, Haider al Abadi, e outra, pelo seu antecessor, Nouri al Maliki (que governou de 2006 a 2014), que ainda enfrentarão outras três grandes coalizões xiitas.

Entre elas está a coalizão respaldada pelo influente clérigo Moqtada al Sadr, que nos últimos dois anos organizou protestos contra a corrupção, e uma aliança liderada por Hadi al Amiri, líder da Organização Badr, uma das milícias que participaram da guerra contra os jihadistas do grupo Estado Islâmico.

Apesar destas divisões, que também se repetiram em outros grupos, como os curdos, após a apuração de votos "a influência sectária e étnica aflorará em relação às negociações para formar o governo", segundo disse à Agência Efe o professor de Ciências Políticas da Universidade de Tikrit, Abbas Hussein.

"É um fato inegável que o processo político no Iraque foi completamente construído sobre uma base sectária e étnica que ainda controla o poder neste país", comentou.

Algumas alianças, como a liderada por Al Abadi, foram integradas por vários políticos sunitas em uma tentativa de mostrar que deixaram para trás a divisão sectária do país, que gerou violentos enfrentamentos armados nos últimos anos.

No entanto, para Hussein, estes movimentos "não são mais que uma tentativa de conseguir mais votos e obter o maior número de assentos no parlamento e no próximo governo".

No momento de formar o governo, segundo o analista, os partidos distribuirão os postos em função da religião e dos interesses partidários, ao invés de se basearem na competência e na integridade.

Segundo um pacto tácito, desde as eleições de 2005 a chefia de governo é reservada aos xiitas, a direção do parlamento aos sunitas e a presidência da República, que tem um papel simbólico, aos curdos.

O ativista político Majid Sultan é da mesma opinião e não duvida que "os partidos políticos voltarão ao sectarismo e ao nacionalismo se sentirem que perderão parte dos seus privilégios", apesar de agora bradarem contra a intolerância e a corrupção.

Sultan acredita que o grande número de cartazes eleitorais que apareceram rasgados em todo o país e as campanhas de difamação contra candidatos, que obscureceram a campanha, se devem a motivos sectários.

Já o analista político Abdulaziz Al Yabury, que também vê poucas mudanças no panorama eleitoral, declarou que os programas políticos se parecem "muito" com aqueles vistos em eleições passadas.

Mais de 300 candidatos concorreram em todas as eleições realizadas no Iraque desde 2005 e sempre conseguiram posições importantes, ressaltou Yabury.

Apesar deste panorama "pouco encorajador", Yabury reconheceu que os apelos pela mudança, para erradicar o sectarismo e para lutar contra a corrupção "se aproximam mais" das vozes da rua.

Estas são as quartas eleições parlamentares desde o fim do regime de Saddam Hussein, e estão convocados às urnas 24 milhões de eleitores, para escolher 329 deputados dentre mais de 7.000 candidatos.

Os iraquianos no exterior poderão votar nesta quinta e nesta sexta-feira em 20 países, assim como integrantes do Exército e de outras forças de segurança. Já a população geral irá às urnas no sábado, pela primeira vez com um sistema eletrônico que acelerará a apuração de votos.

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