Ex-cidade símbolo da Palestina, Jaffa vira "bairro hipster" israelense

Joan Mas Autonell.

Jerusalém, 17 mai (EFE).- Jaffa, hoje o bairro mais boêmio de Tel Aviv, onde convivem árabes e israelenses, foi o epicentro econômico e a maior cidade palestina até 1948, mas, com a criação de Israel há 70 anos, a posterior guerra e a expulsão da maior parte da população, o seu estilo mudou radicalmente.

A cidade, com uma história milenar que remonta à Idade do Bronze (5 mil anos atrás), é chamada de "a namorada da Palestina" e foi um dos principais núcleos culturais do mundo árabe por séculos.

A velha cidade, que agora se transformou "no jardim dos fundos de Tel Aviv", como disse à Agência Efe o historiador Umar al Kubari, foi a sede de pelo menos cinco jornais.

"Havia sete cinemas, gráficas que exportavam livros a todo o Oriente Médio e sete teatros onde se apresentavam os melhores artistas da época", lembrou.

Isto mudou em maio de 1948, após a criação de Israel em parte do território do Mandato Britânico da Palestina (1922-1948), que fez com que cinco países árabes declarassem contra o novo Estado uma guerra que provocou o deslocamento de mais de 700 mil palestinos, um momento lembrado a cada 15 de maio, o Dia da Nakba (Catástrofe, em árabe).

No plano de partilha da ONU, Jaffa fazia parte do futuro Estado palestino (que nunca foi criado), mas a cidade foi tomada por forças judaicas e ficou em posse dos israelenses depois da guerra.

"Os palestinos de Jaffa fugiram pelo porto, sem saber para onde iam", contou Kubari, acrescentando que alguns foram para o Líbano - e acabaram em Beirute -, mas muitos chegaram a Gaza, e a maioria deles nunca conseguiu voltar.

Até 1948, em Jaffa e nas 24 aldeias ao redor viviam mais de 100 mil pessoas que se dedicavam ao cultivo de laranja, ao comércio marítimo e à pesca, "mas 96% da população sofreu a limpeza étnica israelense", segundo o historiador, que garantiu que nenhum dos povoados daquela época existe atualmente.

"Hoje em dia, do legado palestino de Jaffa só há ruínas e partes de edifícios", lamentou.

Ami Shaher, israelense residente em Jaffa e membro da ONG Zochrot, que recupera a memória histórica do êxodo palestino, contou que depois de 1948 só ficaram quatro mil pessoas nativas em Jaffa e elas foram "fechadas em um gueto rodeado de arame farpado".

"Paralelamente, judeus vindos de países árabes, mas também refugiados europeus, se assentaram aqui", explicou Shaher, que disse que as autoridades israelenses incentivam que essas pessoas se instalem nas casas que ficaram vazias.

Atualmente, no entanto, Jaffa é um bairro misto, e os moradores judeus, a maioria, convivem com um quarto de população árabe descendente da minoria palestina que não foi embora.

"Tenho muitos amigos judeus. Deixamos política e religião de lado e nos relacionamos sem problema", disse Jacob Hanania, um jovem árabe cristão que comanda o Basma Coffee, uma lojinha perto do porto que é um dos pontos mais movimentados da cidade.

Sentado no seu estabelecimento, decorado com mobília e estética tradicionalmente árabes, Hanania contou que crescer em Jaffa não foi fácil.

"Quando era pequeno, havia muita criminalidade e brigas constantes entre máfias, sem que a polícia israelense fizesse nada", contou.

Agora, segundo ele, a realidade já não é tão complexa e Jaffa é uma região altamente cotada no setor imobiliário por seu atrativo mediterrâneo e sua proximidade com o mar.

Menor, se comparada aos altos edifícios de Tel Aviv, o centro histórico de Jaffa é um aglomerado de casas antigas, prédios velhos que viraram imóveis de luxo, ruas cheias de restaurantes, sorveterias, cafés, lojas de roupa e galerias de arte por onde passeiam turistas e jovens israelenses descolados.

Em uma rua bem recuperada, perto de casas desmoronadas, está o Andromeda, um imóvel de luxo com estilo rústico e magnitude palaciana.

Shaher, que mora em Jaffa há 20 anos, lamentou o encarecimento da vida depois da chegada de moradores com alto poder aquisitivo, um processo que tende a acabar com qualquer resquício do passado palestino no bairro.

"99% das famílias que podem comprar uma casa em Jaffa são judias", disse Kubari, destacando que muitos palestinos, com menos recursos se veem obrigados a ir embora porque não conseguem viver lá.

"É um processo normal de gentrificação, mas de um processo racial", concluiu o historiador.

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