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AI acusa exército nigeriano de abusar de sobreviventes do Boko Haram

23/05/2018 22h51

Abuja, 24 mai (EFE).- Milhares de mulheres e meninas nigerianas que sobreviveram à "dominação brutal" do grupo armado Boko Haram foram submetidas depois a abusos pelas forças de segurança da Nigéria, segundo denunciou nesta quinta-feira (data local) a Anistia Internacional (AI) em um novo relatório.

O documento acusa o exército nigeriano e a Força Especial Conjunta Civil, milícia que colabora com ele, de separar mulheres de seus maridos e confiná-las em remotos "campos-satélites" onde as violentavam, às vezes em troca de comida.

A AI diz ter recopilado dados que provam que milhares de pessoas morreram de inanição nos campos de acolhida de Borno, estado do nordeste da Nigéria, desde 2015.

"É estarrecedor que pessoas que sofreram tanto com o Boko Haram tenham sido condenadas a sofrer também terríveis abusos nas mãos do exército nigeriano", lamenta Osai Ojigho, diretora da AI na Nigéria, segundo um comunicado de imprensa.

"Ao invés de receber proteção das autoridades, as mulheres e as meninas foram obrigadas a submeter-se ao estupro para não morrer de fome", acrescenta.

Segundo a AI, em alguns casos, os abusos parecem ser parte de uma campanha de perseguição de toda pessoa que pareça ter algo a ver com o Boko Haram.

A AI afirma que seu relatório é o resultado de uma investigação para a qual foram realizadas mais de 250 entrevistas e que abrange os campos-satélites estabelecidos pelo exército em sete cidades do estado de Borno, entre elas Bama, Banki, Rann e Dikwa.

O documento contém também entrevistas com 48 mulheres e meninas que estiveram detidas e um material de vídeos, fotografias e imagens de satélite.

As mulheres afirmam ter sido espancadas e chamadas de "esposas do Boko Haram" pelos agentes dos serviços de segurança ao denunciar o tratamento que tinham recebido, segundo a ONG.

A AI acrescenta que dezenas de mulheres descreveram como soldados e membros da Força Especial Conjunta Civil valiam-se da força e de ameaças para violentá-las nos campos-satélites, em muitos casos se aproveitando da fome para obrigá-las a serem suas "namoradas", o que significava estar sexualmente à sua disposição o tempo todo.

A ONG denuncia ainda que as pessoas confinadas nos campos-satélites sofreram uma grave falta de alimentos entre o início de 2015 e meados de 2016, quando aumentou a assistência humanitária.

Apenas no campo do hospital de Bama morreram centenas, pelo menos, embora possivelmente fossem milhares, durante esse período, segundo a AI.

Muitas das mulheres detidas desde 2015 tinham sido vítimas de sequestro ou casamento forçado pelas mãos do grupo armado e, ao invés de resgatá-las, o exército as deteve por serem "esposas do Boko Haram", acrescenta a ONG.

A organização diz que suas conclusões foram enviadas às autoridades nigerianas, mas que, até agora, não recebeu nenhuma resposta.

O Boko Haram luta para impor um Estado islâmico na Nigéria, país de maioria muçulmana no norte e predominantemente cristão no sul, uma região rica em petróleo.

Mais de 20.000 pessoas morreram desde o começo da insurgência jihadista em 2009 e, segundo a ONU, cerca de 1,6 milhão de pessoas se viram forçadas a deixar seus lares.