Ativista diz que jovens nicaraguenses estão sendo mortos "como cachorros"

Manágua, 29 mai (EFE).- A ativista de direitos humanos Bianca Jagger denunciou nesta terça-feira que na Nicarágua "estão matando como cachorros" os jovens e pediu ao governo para que ponha fim ao derramamento de sangue em meio a uma crise que deixou pelo menos 83 mortos segundo a Anistia Internacional.

"Venho pedir que parem de matar os estudantes e os jovens porque eles são o futuro do país e vocês os estão matando como cachorros", argumentou Jagger na apresentação do estudo da Anistia Internacional "Disparar para matar".

A ativista denunciou "uma guerra suja" por parte do governo contra os manifestantes que protestam pacificamente contra o Executivo da Nicarágua.

"Aqui temos uma guerra suja contra os estudantes e a população civil, que estão desarmados. Aqui não temos uma revolução, temos uma reivindicação cívica dos manifestantes", comentou.

Bianca, que é ex-esposa do líder dos Rolling Stones, Mick Jagger, comparou a atual crise política com a vivida pelos nicaraguenses em 1979 durante a ditadura de Somoza.

"Não sejam iludidos e lembrem-se de Somoza. Não sei como ele não tem vergonha de ter se transformado em um ditador e seguir os passos a Somoza. Talvez os Ortega sejam piores que os Somoza", disse Jagger em referência ao presidente Daniel Ortega.

A ativista pediu a saída pacífica de Ortega e da vice-presidente Rosario Murillo do poder, além da realização de novas eleições livres.

"A única solução que existe para a Nicarágua é que Ortega e Murillo vão embora e nos permitam realizar eleições livres, gozar de liberdade e ter respeito aos direitos humanos, definitivamente, uma democracia", concluiu a ativista nicaraguense.

A Anistia Internacional (AI) responsabilizou o governo de Daniel Ortega de implementar e manter uma estratégia de repressão "em algumas ocasiões intencionalmente letal" durante a crise sociopolítica da Nicarágua.

"Existem razões para pensar que as autoridades nicaraguenses, inclusive as mais altas, implementaram e mantiveram uma estratégia de repressão, em algumas ocasiões intencionalmente letal, ao longo das semanas de protesto", indicou a ONG em relatório apresentado nesta terça-feira em Manágua.

Com a documentação obtida, a Anistia Internacional considera que, "com base no padrão identificado, um elevado número de casos podem ser considerados execuções extrajudiciais".

Dentro da estratégia de repressão, a organização humanitária internacional afirmou o discurso de negação e invisibilidade da repressão e as suas consequências, a estigmatização pública por parte do governo dos manifestantes e a utilização de grupos parapoliciais.

A ONG também denunciou o uso excessivo da força por parte de policiais e grupos antimotins, a execução extrajudicial de pessoas, os atos de encobrimento e obstaculização na investigação, a negação de atendimento médico nos hospitais e as tentativas de controle da imprensa.

"A organização obteve informação através de reuniões, imagens e vídeos que indica que as autoridades teriam exercido um uso indevido da força, através do uso inadequado de armas", diz o relatório.

"A Anistia Internacional considera que existe um padrão que indicaria que os grupos parapoliciais, a Polícia Nacional e as forças antimotins causaram a morte de maneira intencional em um significativo número de casos", acrescenta o documento.

A organização humanitária também denunciou a localização de tiros em cabeça, pescoço e tórax e os atos de encobrimento e obstaculização das investigações mediante a omissão de exames médicos, falta de exaustividade no tratamento das provas, os obstáculos ao acesso à justiça e o assédio aos familiares das vítimas.

De acordo com AI, os governos da América, que estão demonstrando pouca liderança e que em sua maioria estão envolvidos em questões de corrupção, são em parte responsáveis da crise sociopolítica da Nicarágua, pois a falta de legitimidade e de união perpetua a impunidade.

"Infelizmente a falta de um consenso regional, de um posicionamento, permite que siga a impunidade nestas graves crises", disse à Agência Efe a diretora para as Américas da Anistia Internacional, Erika Guevara.

Segundo a ativista, a situação atual da Nicarágua, um risco também enfrentado por outros países da região, faz parte de um "padrão generalizado" no continente americano, cujos governos reprimem quem discorda com as suas políticas, como ocorre na Venezuela ou como aconteceu em Honduras.

Na visão de Guevara, é neste cenário que a falta de legitimidade faz com "não haja uma coadjuvância" na proteção dos direitos humanos, uma responsabilidade compartilhada por todos os países, mas perante a qual a comunidade internacional "se silencia" e esconde "atrocidades" contra a população porque tem "medo" de ter perdas políticas e econômicas.

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