Solidariedade do Ramadã enche o estômago de milhares de famílias iemenitas

Khaled Abdalah.

Sana, 31 mai (EFE).- Durante o mês sagrado do Ramadã, no qual os muçulmanos devem se solidarizar com os mais necessitados, milhares de famílias iemenitas têm uma refeição garantida por dia em um país no qual mais de dois terços da população está à beira da crise de fome.

No bairro humilde de Heziyaz, no sul da capital Sana, mais de 3 mil pessoas fazem fila para receber uma refeição composta por arroz, sopa, leite e pão das mãos dos voluntários da organização local Amalna (que significa nossa esperança em árabe).

As organizações de caridade recebem neste período generosas doações, com as quais podem aliviar o sofrimento dos iemenitas mais afetados pela maior crise humanitária do mundo, segundo a ONU, já que no país mais de 22 milhões de pessoas precisam de assistência humanitária.

Entre eles está Abdulrahman Alian, professor de Matemática de uma escola pública e pai de uma família de cinco membros, que não recebe seu salário há um ano e meio devido ao colapso das instituições estatais.

"Estivemos um ano e meio sem salário, nossa situação girou 180 graus (...) Não temos assistência médica, nem as necessidades básicas cobertas", lamentou Alian em declarações à Agência Efe.

A cada dia, desde o começo do mês sagrado, há duas semanas, Alian pode conseguir um prato quente para sua família graças às doações do Ramadã, enquanto normalmente só dispõe de 3 mil riais (pouco mais de R$ 25) por semana, que consegue com algumas aulas particulares.

Na mesma fila está Ali Maref, um soldado do exército que precisa manter uma família de seis pessoas, mas também não recebe salário e precisa recorrer a comida gratuita.

"Não temos salários e dependemos da comida que nos oferecem aqui. No passado, nossos salários cobriam todas as nossas necessidades, não recorríamos às organizações", declarou o militar.

"Já vendemos joias, móveis e eletrodomésticos, tudo", acrescentou, fazendo referência a uma situação comum para muitos iemenitas que o conflito armado empurrou à pobreza.

Segundo a ONU, quase 8 milhões e meio de pessoas não sabem de onde obterão sua próxima refeição, 3 milhões de crianças menores de cinco anos, mulheres grávidas e mães em fase de amamentação sofrem desnutrição aguda, entre elas 400 mil crianças gravemente desnutridas que correm o risco de morrer.

Em uma fila reservada apenas às mulheres, uma dona de casa que pede para ser chamada de Umm Qanaf ("mãe de Qanaf") espera sob o sol junto com outras centenas de iemenitas vestidas de preto.

"Não temos nada: tinha minhas joias de ouro, mas não me resta nenhuma. Tínhamos dois bujões de gás e tive que vender um", disse a mulher, cujo marido trabalhava na construção, mas agora está desempregado.

A família de Umm Qanaf não conseguiu pagar o aluguel da sua casa nos últimos dez meses por não ter dinheiro, mas pelo menos durante os 28 ou 29 dias que dura o mês do Ramadã pode levar um prato de comida à boca.

Enquanto os voluntários distribuem a comida, outros tentam aliviar o calor dos que fazem fila lhes refrescando com mangueiras de água.

O coordenar da ONG Amalna, Abdul Fatah al Garadi, explicou à Efe que os que recebem as refeições de graça de Ramadã são os mais pobres do bairro.

"A maioria destas pessoas vivem abaixo da linha de pobreza", destacou Al Garadi, acrescentando que sua organização oferece assistência a um total de 3.250 famílias.

"Antes de 2015, buscávamos as famílias necessitadas. Costumávamos ir de casa em casa buscar a famílias que precisavam, mas agora as famílias são as que recorrem às organizações beneficentes", afirmou, como indicador da deterioração da situação para muitos iemenitas.

O conflito entre o governo do presidente Abd Rabbuh Mansur al Hadi e os rebeldes houthis, que disputam o poder desde 2014, forçou três milhões de pessoas a deixar seus lares, enquanto metade da população do Iêmen vive em áreas afetadas pela guerra, que tem se agravado desde a intervenção da coalizão militar árabe em março de 2015.

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