Jovem masai combate mutilação genital feminina no Quênia

Irene Escudero.

Nairóbi, 2 jun (EFE).- Rejeitar uma tradição e uma prática cultural não é fácil, ainda mais se for tão patriarcal e perigosa como a mutilação genital feminina (MGF). Apesar de tudo, a jovem masai Nice Nailantei Leng'ete negou essa prática por duas vezes.

"A minha hora chegou quando tinha oito anos; meu tio veio aqui na residência do meu avô e disse: 'estou circuncidando as minhas três filhas, portanto, por favor, necessito de Nice e de sua irmã nesse grupo', pois são cerimônias muito caras e é melhor quando é aproveitada por muitas meninas", contou à Agência Efe esta queniana, escolhida uma das cem pessoas mais influentes do mundo em 2018 pela revista "Time".

No dia da cerimônia, como manda a tradição, elas se levantaram às 4 da manhã para se lavar com água fria, "porque acreditam que assim não se sentirá a dor, o que não faz muito sentido".

Dessa vez, Nice e sua irmã - três anos mais velha que ela - subiram em uma árvore e se esconderam, depois fugiram para casa de uma tia materna. Suas três primas não tiveram a mesma sorte.

Mas o tio insistiu e convocou uma nova cerimônia para que as moças, segundo o costume masai, passassem de meninas para mulheres.

Desta vez não podiam se esconder, por isso a irmã de Nice pediu que ela corresse, já que se sacrificaria pelas duas. Leng'ete subiu na mesma árvore e depois se refugiou em um internado, onde as outras meninas, que não eram masais, não entendiam esta prática.

Foi seu avô que conseguiu convencer outros familiares a deixarem de persegui-la, já que como um dos mais velhos da comunidade, era ouvido e respeitado.

A menina conseguiu ir atrasando a angustiante cerimônia pouco a pouco, ano a ano, mês a mês, até que o idoso perdeu a paciência e deu um "basta". Se Nice não queria passar por isso, a decisão deveria ser respeitada.

"Se eu consentisse, significava que não voltaria à escola, que iriam rir de mim, que me casaria ou inclusive poderia morrer", disse a jovem em entrevista à Agência Efe em Nairóbi.

Tinha apenas 8 anos, mas já tinha visto outras moças de sua comunidade, Noomayianat (no Quênia), sangrar na frente de seus olhos.

As masais, quando são pequenas, são obrigadas a presenciar outras "cerimônias" para que se preparem. "Não se pode olhar para o lado ou chorar porque é uma grande desonra para sua família e sua comunidade".

O seu "não" a submeteu à desonra, à solidão e às zombarias da sua comunidade, mas longe de cair em desgraça, decidiu passar de "mau exemplo" a mostrar soluções.

Para esta jovem de agora 27 anos não é questão de esquecer a cultura, mas de "encontrar as partes boas de nossa cultura, e substituir o corte (a MGF) pela educação".

"Temos uma boa cultura que precisamos conservar, mas uma cultura que prejudica as meninas, que destroça seus sonhos e não lhes deixa escolher o que fazer com os seus corpos ou com quem se casar, deve ser substituída com educação", argumentou Leng'ete.

Por isso, quando acabou a escola, começou a trabalhar com sua própria comunidade, em seu povoado de 7 mil pessoas, para mudar essa mentalidade e fazer as pessoas acreditarem que não é preciso mutilar as meninas.

"Fui a primeira a ir à universidade e ter uma carreira (de gestão de sistemas de saúde) e isso significa que estamos perdendo muitas meninas pela MGF", lamentou.

Começou na sua própria comunidade porque estava convencida de que "a mudança tem que ser de dentro", mas há anos trabalha com a ONG Amref para levar essa transformação também a outras comunidades masais do Quênia e da Tanzânia.

Recentemente agraciada com o prêmio Princesa de Astúrias de Cooperação 2018 da Espanha, a Amref é uma organização fundada na África com a mesma mentalidade de Nice: que as próprias comunidades decidam o quê fazer para melhorar.

Com seu trabalho na Amref, esta valente mulher salvou no Quênia cerca de 15 mil meninas da mutilação e do casamento infantil.

No Quênia, a MGF está proibida por lei desde 2011, mas ainda é praticada hoje dia. Leng'ete entende que a norma é necessária, mas é realmente necessário mudar a mentalidade.

Após conseguir que, pelo menos em sua comunidade, as cerimônias de passagem de menina para mulher não impliquem em mutilação, Leng'ete continua sonhando.

Faz isso com um refúgio para mulheres que, como ela, tenham a coragem de correr e se esconder das agressões ao corpo: é um espaço seguro que quer chamar de "The Nice Place", um lindo trocadilho com o seu nome em inglês que significa "Lugar agradável".

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