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"Zoot Suit Riots": 75 anos da onda de violência contra latinos em Los Angeles

03/06/2018 10h01

David Villafranca.

Los Angeles (EUA), 3 jun (EFE).- A história de conflito e ódio racial em Los Angeles teve há 75 anos um dos episódios mais graves com os "Zoot Suit Riots", uma série de distúrbios que durou vários dias em junho de 1943 com surras e linchamentos à população de origem latina por toda a cidade.

Esses incidentes de violência racial ficaram conhecidos com o nome "zoot suit", um tipo de traje com calças largas e de cintura alta e jaqueta longa, a vestimenta preferida dos mexicanos-americanos nos anos 40.

A aversão à população de origem mexicana cresceu nos Estados Unidos durante a 2ª Guerra Mundial, quando os discursos patrióticos e o receio em relação às minorias foram alimentados pela imprensa sensacionalista que, por exemplo, vinculava os "pachucos" com a criminalidade e às gangues.

Um antecedente dos "Zoot Suit Riots" foi o "assassinato em Sleepy Lagoon", um controverso caso em 1942 pelo qual 12 jovens latinos foram condenados, o que contribuiu para aumentar a rejeição em Los Angeles contra os mexicano-americanos, embora as condenações tenham sido anuladas dois anos depois por falta de provas.

Apesar de alguns confrontos entre "pachucos" e soldados (o sul da Califórnia era uma grande base naval da Marinha) terem ocorrido semanas antes, o começo dos "Zoot Suit Riots" costuma ser lembrado pelo dia 3 de junho de 1943, quando 50 militares percorreram as ruas do centro de Los Angeles à caça de "pachucos".

Faltando um melhor método, os fuzileiros navais agrediram todos os jovens que vestiam um "zoot suit". Após as surras, os militares tiravam e queimavam as roupas dos indivíduos.

Uma das fotografias mais conhecidas dessa época mostra dois "pachucos" que, após serem atacados, ficam no chão parcialmente nus e rodeados por um grupo de cidadãos, e pelo menos um policial, que observam a cena sem oferecer ajuda.

Essas agressões ficaram mais intensas e se repetiram nos dias seguintes sem que as autoridades impedissem, como descreveu o escritor Carey McWilliams.

"Na noite de 7 de junho, milhares de angelinos participaram de um linchamento em massa. Marchando pelas ruas do centro de Los Angeles, uma multidão de milhares de soldados, fuzileiros navais e civis bateu em cada pessoa com 'zoot suit' que puderam encontrar", afirmou o escritor.

"Pararam ônibus e mexicanos, alguns filipinos e negros foram retirados de seus assentos, jogados na rua e atacados com histeria sádica", acrescentou McWilliams.

Os distúrbios alcançaram outras áreas como East Los Angeles e Watts, enquanto militares de San Diego chegavam à cidade para se unirem aos linchamentos.

No livro "Murder at the Sleepy Lagoon: Zoot Suits, Race & Riot in Wartime L.A." (2003), Eduardo Obregón Pagán afirma que ninguém morreu, mas que 94 civis e 18 militares foram atendidos por ferimentos graves, embora tenha admitido que as estimativas da época não são muito confiáveis.

"É provável que muitas mais vítimas de natureza menos grave não tenham sido reportadas em ambos os lados. O número total de jovens civis e militares envolvidos em empurrões e outras formas de confronto que machucaram mais egos que corpos foi possivelmente mais alto", apontou Pagán.

As autoridades frearam a situação em 8 de junho, quando confinaram os soldados nos quartéis sem permissão para saírem e proibiram o uso do "zoot suit" em público.

A cidade californiana viveria outros graves episódios de violência racial, como os sangrentos distúrbios de Watts em 1965 ou os de 1992 por causa do caso Rodney King, mas os "Zoot Suit Riots" chegaram a repercutir na cultura popular.

O famoso escritor mexicano Luis Valdez, residente nos EUA, estreou no final dos anos 70 a obra teatral "Zoot Suit", que posteriormente seria adaptada ao cinema em 1981 com Edward James Olmos como protagonista.

Além disso, o gênio do suspense James Ellroy também incluiu os "Zoot Suit Riots" em uma das suas obras mais famosas, "Dália Negra".