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Em Gaza, ausentes em protestos criticam utilidade e viés da mobilização

24/06/2018 06h05

Laura Fernández Palomo.

Cidade de Gaza, 24 jun (EFE).- Em meio às árvores e ao silêncio do Parque Remal, em Gaza, quem não participa dos protestos semanais na cidade contra a ocupação israelense busca tranquilidade e tem medo de falar de política, mas muitos não escondem que consideram "inútil" a chamada Grande Marcha do Retorno.

O jovem palestino Fadi conversa com um amigo em um canto do parque, e, no oposto, Raed observa os filhos brincando. Os dois afirmam à Agência Efe não ter participado dos grandes protestos, que começaram em 30 de março na fronteira com Israel, porque não têm clareza "dos interesses ocultos".

"Para que? Não vão mudar nada. Em Gaza existem muitas forças envolvidas. A situação é muito complicada. A vida aqui é muito dura. Muita gente não teve oportunidade de viajar. As pessoas normais são pobres e não podem comprar o básico", disse Fadi, que admitiu ser um privilegiado por conseguir estudar design gráfico fora de Gaza.

Raed, por outro lado, questionou o fato de movimento ter sido tachado de mobilização pacífica, quando as manifestações na fronteira se caracterizam pelo confronto com os soldados israelenses, e também critica "o fato de Israel atirar nas pessoas para evitar que atravessem". Para ele, isso poderia ser feito com água, por exemplo, e não com balas.

Apenas 12 semanas e 131 mortos depois, a Grande Marcha do Retorno acumula tantos seguidores quanto opositores em Gaza e fica à sombra da manipulação do movimento islamita Hamas, que exerce um autoritário controle no região. Um assunto que Fadi e Raed preferem não comentar, ao mesmo tempo em que pedem para que seus sobrenomes não sejam revelados.

Assim como Ibrahim Al Hisi, um pescador de 39 anos e que participou do primeiro protesto, em 30 de março, muitos não voltaram às manifestações seguintes. O Hamas reivindicou a morte de vários de seus membros, o que fez muitos ficarem com medo de uma militarização dos protestos.

Dos 40 mil palestinos que participaram do primeiro dia de mobilização, menos da metade compareceu às outras 11, embora o perfil variado de participantes persistisse.

"As manifestações perderam seu objetivo e passaram ao controle das facções que não se preocupam com as famílias dos que morrem ou com os feridos", disse Hisi sobre um movimento que reivindicava o direito ao retorno dos refugiados palestinos às terras onde viviam antes da fundação da atual versão de Israel, em 1948.

Uma proposta lançada em janeiro no Facebook pelo jornalista e ativista Ahmad Abu Artema teve a adesão de membros da sociedade civil que apoiaram a retirada de cinco acampamentos israelenses ao longo da fronteira com Gaza, onde eram realizadas atividades artísticas e culturais durante a semana, mas que foram desvirtuadas pelas manifestações das sextas-feiras que acabavam em confrontos e mortes.

As facções políticas se uniram depois em um comitê nacional, com o Hamas à frente, que promoveu a mobilização institucionalmente.

"Politicamente, não vejo que tenhamos colocado fim ao bloqueio (israelense) ou melhorado nossas vidas", disse Salem Sheija, funcionário de uma lavanderia, sobre os resultados dos protestos, que pararam com as festividades do fim do Ramadã.

Enquanto alguns setores debatem se continuam e como fazê-lo, os opositores sucumbem à insatisfação de uma mobilização que atualmente é representada pelo lançamento de pipas incendiárias que estão causando grandes danos em terras israelenses e que o Exército considera como "atos terroristas".

"Podemos causar muitos problemas a Israel lançando pipas incendiárias, mas nem elas e nem as pedras podem resolver o nosso problema em Gaza. Não podemos enfrentar um arsenal militar que tem aviões de guerra, tanques e artilharia", acrescenta Sheija.

Para Raed, tudo é parte de um jogo político que só terminará quando os envolvidos quiserem. Israel, pelo bloqueio de 11 anos; o Hamas, pela pressão autoritária; o Egito, pelo fechamento da fronteira de Rafah; e a Autoridade Nacional Palestina (ANP), por impor sanções a partir de Ramala aos funcionários e cortar aleatoriamente os subsídios para alimentação.