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Banco de leite materno é solução para salvar milhares de bebês em Uganda

28/06/2018 10h01

Hope Mafaranga.

Campala, 28 jun (EFE).- Com a recente criação do seu primeiro banco de leite materno, Uganda quer salvar milhares de bebês e se transformar, nessa área, em um país líder na África Subsaariana.

Grace Asiimwe está sentada ao lado da incubadora de seu bebê prematuro em um hospital ugandense. Enquanto o bebê luta para sobreviver em seus primeiros dias de vida, sua mãe tenta, sem sucesso, produzir leite para poder nutrir a criança. A esperança é que eles encontrem um doador de leite materno.

"Beba mais e relaxe. Você está muito tensa", pediu a enfermeira a Asiimwe, respondendo, antes de beber água, que está calma; "o leite que, simplesmente, não sai", disse a mulher quase entre lágrimas.

O seu bebê, que pesa apenas 900 gramas, sobrevive, por enquanto, graças à dextrose, um líquido rico em glicose que lhe é administrado por via intravenosa no Hospital St. Francis, em Nsambya, bairro de Campala, capital do país.

Na mesma unidade neonatal, trigêmeos também prematuros sobrevivem graças a uma doação de leite materno.

Uganda tornou-se um dos países pioneiros na África Subsaariana, ao lado de África do Sul e Quênia, a contar com um banco de leite materno.

Este país da África Oriental é o 11º do mundo com maiores taxas de mortalidade neonatal (nos primeiros 28 dias de vida), segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).

Peter Waiswa, diretor de saúde infantil e materna da Escola de Saúde Pública da Universidade Makerere, explicou à Agência Efe que muitos recém-nascidos não recebem leite materno, que é o alimento mais importante durante os primeiros seis meses de vida.

"Um banco de leite materno pode ajudar a salvar vidas, especialmente no nosso país, que tem uma das taxas mais altas de nascimentos prematuros, uma das principais causas de mortalidade neonatal em todo o mundo", explicou Waiswa.

Todos os anos, 15 milhões de crianças nascem prematuramente no mundo, sobretudo na África Subsaariana. E Uganda ocupa a 13ª posição (entre 184 países) com mais partos prematuros, com um total de 226 mil por ano, segundo os dados de 2017 da OMS.

O leite materno ajuda na sobrevivência desses bebês prematuros e daqueles nascidos com um peso inferior a 1,5 kg, já que para eles a fórmula infantil é de difícil digestão e pode provocar infecção estomacal.

"O leite materno previne a infecção estomacal e tem todos os nutrientes que o bebê necessita para crescer", explicou a diretora do departamento neonatal do Hospital St. Francis, Victoria Nakibuuka.

No entanto, para algumas mães, que sofrem com o estado vulnerável dos seus filhos, produzir leite com essa pressão é impossível, contaram os especialistas deste hospital.

Victoria viu que era possível pasteurizar e armazenar o leite materno para que os bebês de outras mães pudessem usá-lo, e lançou um banco de doações neste centro de saúde que tem entre 600 e 700 nascimentos prematuros a cada ano.

A iniciativa, diss a diretora, aumentou as taxas de sobrevivência de bebês prematuros neste hospital de 45%, três anos atrás, para 85% atualmente.

"O leite doado precisa passar por testes, como o de sangue, para detectar os vírus do HIV ou da hepatite B, e prevenir as crianças de infecções", explicou Nakibuuka.

Mas para que o leite continue a ser útil, eles ainda precisam de infraestruturas básicas, como um pasteurizador que permita matar bactérias, e um refrigerador, no qual as doações possam suportar intactas e em boas condições por até um ano.

Doar leite, no entanto, gera dúvidas em muitas mães que acreditam que, se o fizerem, não terão o suficiente para alimentar seus bebês.

"Estive doando leite para quadrigêmeos, e mesmo assim tenho mais do que suficiente para o meu filho", garantiu, negando essa crença, a enfermeira Rose Lubega Anyigi.

Os bancos de leite não são uma invenção atual: o primeiro foi inaugurado em 1909 em Viena.

Mas na África Subsaariana, que juntamente com o Sul da Ásia é a região com maiores taxas de mortalidade neonatal do mundo, há muito poucas iniciativas desse tipo.

No país vizinho, Quênia, um banco de leite materno está ainda em fase inicial, enquanto na África do Sul, a Associação de Bancos de Leite Materno desenvolve um sistema totalmente funcional há quase 20 anos.