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Internacional

México vai às urnas em meio a um preocupante aumento da violência

28/06/2018 14h47

Juan Manuel Ramírez G.

Cidade do México, 28 jun (EFE).- As eleições mexicanas do próximo domingo serão realizadas em um dos momentos mais violentos da história do país, com mais de 200 mil assassinatos e 35 mil desaparecidos nos últimos 12 anos, níveis registrados em países com conflitos armados internos.

O aumento da violência, atribuída ao tráfico de drogas e ao crime organizado, gerou uma percepção quase generalizada na população de que a impunidade prevalece sobre a justiça.

Entre assassinatos e desaparições constantes, feminicídios, assassinatos de jornalistas e atores políticos do atual processo eleitoral, o México procura nas urnas uma saída para começar se recompor.

A guerra contra o narcotráfico, que foi iniciada na presidência de Felipe Calderón (2006-2012) e continuada pelo presidente Enrique Peña Nieto (2012-2018), gerou uma crise de violência que parece não ter fim.

Calderón decidiu usar as Forças Armadas para combater os cartéis da droga e em missões de segurança quando as taxas de homicídios ainda não tinham disparado os alarmes. Peña Nieto tentou se afastar desta estratégia no início de seu mandato, mas manteve os militares nas ruas e logo repetiu o esquema do antecessor para combater a violência dos narcotraficantes.

O ponto de quebra do governo de Peña Nieto em matéria de insegurança e direitos humanos ocorreu durante o segundo semestre de 2014, com os casos de Tlatlaya e de Ayotzinapa.

No dia 30 de junho daquele ano, na cidade de Tlatlaya, no Estado do México, 22 supostos criminosos morreram após entrarem em confronto com militares, oito deles depois de serem capturados, segundo a Comissão Nacional de Direitos Humanos (CNDH).

Em 26 de setembro de 2014, 43 estudantes de uma escola de Ayotzinapa desapareceram pelas mãos de agentes da polícia do município de Iguala, no estado de Guerrero, um caso que ganhou repercussão mundial.

O sumiço dos estudantes fez com que os olhares do mundo e das organizações de direitos humanos ficassem sobre o México, muito por causa das polêmicas investigações. As famílias rejeitam a versão oficial de que os policiais entregaram os jovens ao crime organizado, que os assassinou e incinerou em um aterro sanitário.

"As pessoas que vivem no México se sentem inseguras, já não acreditam na polícia nem nas instituições. Simplesmente, não existe uma estratégia de segurança nem com Peña Nieto, nem houve com Felipe Calderón", afirmou Ixchel Cisneros, diretora executiva do Centro Nacional de Comunicação Social (Cencos).

"Para um país democrático, e dizem que o México é um deles, mas não parece, é uma loucura falar de 35 mil desaparecidos e mais de 200 mil assassinatos", argumentou a especialista.

Cisneros disse acreditar que o próximo presidente do México contará com uma estratégia integral de segurança e terá como prioridade melhorar a polícia, a prevenção da violência e a retirada das Forças Armadas das ruas.

Santiago Aguirre, subdiretor do Centro de Direitos Humanos Miguel Agustín Pro Juárez, comentou que o número de mortos e desaparecidos dos últimos 12 anos no México é similar aos de países que enfrentam conflitos armados internos.

"Mas no México não há um conflito armado interno declarado como tal", afirmou.

Aguirre avaliou que as estatísticas mexicanas não têm comparação e citou alguns números de desaparecidos em países como Argentina (22 mil) e Chile (1,2 mil) que viveram ditaduras militares nos anos 1970.

"Não é para estabelecer uma equivalência entre estes dois tipos de contextos, claramente diferenciados, mas para ter uma ideia do que o México enfrenta hoje", mencionou.

"Esses números não são próprios de uma democracia, nem de um entorno de normalidade", segundo Aguirre, que como exemplo lembrou os assassinatos de 115 pessoas que concorriam a um cargo público no atual processo eleitoral, que começou em 8 de setembro de 2017.

"Estamos em uma situação que não é normal e requer medidas excepcionais. Estas devem acontecer também para revisar o que tem sido feito nos últimos 12 anos", declarou.

Em meio a um clima de impunidade que preocupa a população, segundo Aguirre, os quatro candidatos presidenciais apenas citaram o tema da segurança na campanha e não revelaram a sua estratégia para reduzir a violência.

"É possível que nos próximos seis anos as coisas não melhorem e, pelo contrário, a situação pode piorar", analisou Cisneros, que junto com Aguirre espera que a pressão da população seja o catalisador que o México precisa para exigir que o presidente preste contas e que haja julgamentos pelos crimes do passado.

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