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Internacional

Rohani quer atrair exilados iranianos para amenizar crise econômica

06/07/2018 10h09

Artemis Razmipour.

Teerã, 6 jul (EFE).- O governo do Irã pretende proteger os cidadãos do país no exterior de problemas judiciais caso viajem de volta para casa com o objetivo de atrair recursos por meio do turismo ou de investimentos que aliviem a recente crise econômica.

Tentando se antecipar à acentuação da crise diante da iminente volta das sanções americanas, o presidente do Irã, Hassan Rohani, tenta evitar que os cidadãos exilados que queiram retornar tenham problemas com a Justiça, como o confisco de bens e até a prisão.

"Os juízes podem ampliar a confiança. Cerca de seis milhões de iranianos vivem no exterior e muitos deles têm grandes capitais. Caso vejam que há segurança na situação interna, eles podem transferir esse dinheiro para o país", disse Rohani recentemente.

As declarações do presidente foram dadas em um discurso para magistrados. Rohani também sugeriu, caso a primeira alternativa seja possível, que os exilados pelo menos possam visitar suas famílias sem terem problemas, voltando para o exterior na sequência.

Depois da Revolução Iraniana em 1979, muitos cidadãos do país, envolvidos ou não em assuntos políticos, decidiram fugir. Entre eles estavam grandes empresários, considerados vinculados com o antigo regime pelos aiatolás, e artistas acusados de praticar atividades contrárias aos princípios islâmicos.

Além disso, muitos iranianos foram abandonando o país nas últimas quatro décadas pelas restrições sociais impostas pelos aiatolás e para dar um futuro melhor para os filhos.

A proposta de Rohani, porém, não agradou. Kamran, engenheiro iraniano com parentes no exterior, disse que a sugestão do governo é uma "brincadeira de mau gosto". Ele ainda se disse surpreso com a inocência do presidente do país ao propor uma medida desse tipo.

"Eles não vão se arriscar para ajudar o turismo e a economia desse sistema (dos aiatolás). Meus familiares nem se incomodam em pensar nisso. Eles saíram por problemas políticos, sofreram a dor de estarem longe todos esses anos e visitaram seus parentes em qualquer país que não fosse o Irã", explicou.

Um desses exilados é Farzan, um empresário de 55 anos que reclamou em entrevista à Agência Efe dos interrogatórios aos quais foi submetido ao entrar e sair do Irã quando viajou ao país.

Com a atual situação, Farzan acredita que os exilados detentores de grandes capitais não se arriscariam a investir no país.

"Pode ser que depois de um tempo soframos qualquer acusação. Nesse caso, não só não obteremos nenhum lucro, mas inclusive correremos o risco de confiscarem nossos bens", lamentou.

O empresário citou como exemplo Kaveh Madani, cientista iraniano e defensor do meio ambiente que foi preso há alguns meses por espionagem. Para Farzan, a prisão foi um sinal muito ruim para aqueles que vivem fora do Irã.

Essa é a impressão que Rohani quer reverter. Na avaliação do presidente, criar facilidades para os iranianos que vivem no exterior para visitar o país ajudaria o governo a resistir à "guerra psicológica" promovida pelo governo dos Estados Unidos.

Rohani crê que, ao voltarem para suas casas no exterior, esses cidadãos podem funcionar como "promotores" da República Islâmica.

"Se esses aproximadamente seis milhões de iranianos viajarem ao Irã duas vezes ao ano e retornarem sem problemas, criaremos uma boa circulação de dinheiro e muitos empregos", explicou Rohani aos juízes.

As tentativas do governo de promover o turismo enfrentam, no entanto, outro problema: os próprios cidadãos do Irã preferem viajar para países nos quais há mais liberdade social.

Várias pessoas ouvidas pela Efe indicaram que preferem viajar para o exterior para curtir boates, bares e fugir de proibições como o uso da vestimenta islâmica pelas mulheres.

Outros querem ouvir músicos iranianos proibidos no país, mas autorizados a trabalhar normalmente nos países vizinhos.

Sobre o caso, o líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, pediu no mês passado em discurso para que os cidadãos no país resistam às "pressões econômicas" enfrentadas pelo governo.

"Quem se habituou a ir ao exterior, abandone esse costume", disse Khamenei, esclarecendo que a sugestão não incluía as viagens religiosas de peregrinação para a Arábia Saudita ou o Iraque.

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