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Quase invisíveis, moradores de rua são questão real no Japão

24/08/2018 10h02

Ainara Cacho.

Tóquio, 24 ago (EFE) - Diariamente, nas prósperas ruas de Tóquio, milhares de pessoas esperam a noite cair para desdobrar pedaços de papelão para poderem dormir e se esconder de uma sociedade que faz o possível para mantê-las longe do campo de visão.

Por trás dos números positivos que orgulham a terceira maior economia mundial, como o baixo nível de desemprego (2,4%) e um Produto Interno Bruto (PIB) que voltou a crescer no último trimestre, há uma pobreza relativa que se mantém praticamente igual desde 2000 e afeta cerca de 15% da população. O número de pessoas sem casa, por sua vez, diminuiu 77% nos últimos 11 anos, conforme dados do governo. Segundo dados oficiais, há 4.977 sem-teto no Japão e 1.242 na capital, mas ONGs afirmam que os números reais são muito maiores.

No distrito de Shinjuku, um dos mais movimentados de Tóquio, centenas de pessoas dormem embaixo de viadutos ou em passagens subterrâneas, mas diferentemente do que acontece em outros grandes centros do mundo, quase nunca pedem dinheiro.

"Tem mais pessoas sem-teto do que o governo contabiliza, porque eles fazem a apuração de manhã, e é à noite que elas aparecem", explicou à Agência Efe o cofundador de um grupo de ajuda moradores de rua, Sulejman Brkic, enquanto caminha com uma sacola cheias de doces, embalagens de comida e garrafas com chá gelado.

Ao se aproximar de um homem deitado em um papelão, ele ofereceu alguns itens que carregava.

"Não quero nada", respondeu o homem.

Segundo Daizo Tanaka, outro voluntário do grupo, essa é uma atitude muito comum.

"Alguns deles se envergonham da situação em que estão e sabem que também são uma vergonha para a sociedade japonesa", explicou Daizo.

Além das pessoas que vivem na rua, existe outro grupo, o de trabalhadores irregulares sem moradia. Nesse caso, eles encontram um teto para dormir, geralmente nos acessíveis cibercafés, mas este ano o governo de Tóquio contabilizou 4 mil cidadãos nessa condição, o dobro do que tinha há dez anos.

Sadao Kawamura, de 77 anos, era um desses trabalhadores irregulares sem casa que perdeu o emprego quando a bolha financeira e imobiliária explodiu nos anos 90 no Japão. Depois disso, só conseguiu trabalhos que permitem a ele pagar hoteizinhos baratos ou passar as noites em cibercafés.

Depois de 50 anos, começou a ficar mais difícil encontrar trabalho e nem a formação em Direito nem a experiência no mercado serviram. Foi então que ele acabou indo morar nas ruas.

"Eu me sentia patético. Estava desesperado para sair daquela situação", contou Kawamura com um fio de voz.

O sentimento, porém, não é compartilhado por todos, segundo Yuki Tsubasa, da organização sem fins lucrativos Moyai.

"Muitos se dão por vencidos e também não conhecem as ajudas que existem para sair dessa vida. A pobreza no Japão é um problema invisível. A maioria das pessoas é indiferente porque acha que não é sua responsabilidade", disse o voluntário, formado em Sociologia.

Pressionado por organizações como a Moyai, o governo promulgou em 2002 uma lei para promover a autossuficiência dos sem-teto. A medida permite que eles fiquem em albergues para procurar trabalho, o que facilitou a vida de pessoas como Sadao, que conseguiu se reerguer.

Apesar do avanço que representou a iniciativa, para a pesquisadora Rayna Rusenko, da Universidade Sofia, essas são medidas que ajudam a atenuar temporariamente a situação e não focam em resolver as causas reais da pobreza.

"As instituições governamentais foram hostis com as pessoas sem-teto por décadas", explicou a acadêmica especializada na política do bem-estar social criada em Tóquio há 12 anos.

O receio é que tal atitude das autoridades se agrave com a aproximação da Olimpíada de 2020.

"O evento se transformará em uma razão legítima para eliminar os sem-teto de lugares públicos", afirmou a acadêmica.

Para Christopher Warren, ativista dessa causa em Shinjuku, o governo japonês não está focado nessa questão.

"O governo está mais preocupado em limpar as ruas do que em solucionar o problema real", defendeu.