Vítimas do Agente Laranja ganham nova esperança de no Vietnã

Eric San Juan.

Ho Chi Minh (Vietnã), 14 set (EFE).- A condenação da Monsanto a indenizar um jardineiro americano doente de câncer reabriu o debate sobre a situação de milhões de vietnamitas com sequelas por exposição ao veneno conhecido como Agente Laranja durante a Guerra do Vietnã.

O Governo de Hanói reiterou que a Monsanto, um dos principais fabricantes do produto, "deve ser considerada responsável para compensar as vítimas vietnamitas do Agente Laranja pelo dano causado".

A vice-ministra de Relações Exteriores vietnamita, Nguyen Phuong Tra, afirmou em recente entrevista coletiva que o veredicto em agosto de um júri de San Francisco que obriga a Monsanto a pagar US$ 289 milhões a Dewayne Johnson por causa dos efeitos prejudiciais do herbicida Roundup "é um precedente" que nega os argumentos anteriores da empresa.

Em 2004, a Associação Vietnamita de Vítimas do Agente Laranja (Vava) processou em Nova York Monsanto, Dow Chemical e outras 35 empresas mas o tribunal desprezou o caso, ao considerar que elas não eram responsáveis pelo uso feito de seus produtos e que as vítimas não podiam demonstrar que seus problemas de saúde estavam ligados a eles.

Pesquisas médicas dos EUA vincularam a exposição à dioxina, veneno letal que compõe o herbicida, a 13 doenças, incluindo vários tipos de câncer e problemas cardíacos, enquanto estudos realizados no Vietnã elevam esse número para 17.

Segundo a Cruz Vermelha de Hanói, mais de 3 milhões de vietnamitas têm sofrido sequelas devido a seu contato com a dioxina contida nos 70 milhões de litros de Agente Laranja borrifados pelas tropas dos EUA.

Além disso, o Vietnã calcula que desde que a guerra terminou, mais de 150 mil crianças nasceram com más-formações e limitações físicas por causa da exposição de seus pais e avós ao veneno.

Para Quach Thanh Vinh, advogado da Vava, o veredicto cria um precedente e abre uma nova esperança de compensação financeira para as vítimas, que sobrevivem cuidadas por seus familiares e com uma pequena pensão por invalidez.

"Não importa quão difícil e longo seja nosso caso, nunca vamos nos render, em honra dos milhões de vítimas vietnamitas", disse Vinh ao jornal "VietnamNews".

Nguyen Thanh Trung, diretor do Centro de Estudos Internacionais da Universidade de Ciências Sociais de Ho Chi Minh, explicou à Efe que as vítimas terão o apoio do governo do Vietnã por causa das vantagens que uma vitória na justiça traria para todo o país.



"O Vietnã conta com cerca de 3 milhões de supostas vítimas do Agente Laranja que representam uma despesa enorme para o Governo. A vitória em um processo civil representaria um enorme benefício", disse Trung.

O acadêmico não acredita que o apoio explícito do regime socialista a um processo possa minar as relações bilaterais com os EUA, porque não se trata de um litígio entre dois estados.

"O Vietnã poderia usar a mesma tática que em 2004: uma associação não governamental pode abrir um processo contra as companhias químicas contratadas pelos EUA durante a guerra", continuou Trung.

Ele também não acredita que a parceria da Monsanto com Hanói no setor de cultivos transgênicos seja um obstáculo para o apoio do governo a um possível processo, porque "se ele for vencido, os benefícios superariam os de qualquer negócio que possa ter com eles".

A companhia, adquirida este ano pela farmacêutica Bayer, alega que foi o governo dos EUA que "estabeleceu as especificações para fabricar o Agente Laranja e determinou quando, onde e como seria usado". A Bayer disse em comunicado enviado à Efe que "nunca forneceu herbicidas ao exército dos EUA para seu uso no Vietnã".

"Os tribunais dos EUA determinaram que os contratistas em tempos de guerra (como a antiga Monsanto) que produziram o Agente Laranja sob ordens do governo dos EUA e para o uso governamental durante a guerra não são responsáveis pelos danos causados", concluiu a Bayer.

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